"NUESTROS HERMANOS" nos visitam este mês, como já fora anunciado. Tal como sucedera com o ciclo brasileiro, foi com certo espanto que constatei a dificuldade de obter em terras lusas algumas obras do cinema espanhol, mesmo se a missão, desta vez, se revelou mais fácil. Os filmes deixados de lado logo os recomendaremos aqui aquando do encerramento oficial do ciclo. De Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos: mas bons filmes, certamente. No casting de fitas, não podia faltar uma embaixada de Amenábar, cineasta de carreira feliz. Resolvemos regressar aos seus começos, como quem escreve uma história ab ovo (mesmo se Horácio o desaconselha). Eis pois uma curto BI do bicho.A HISTÓRIA:
Tese é uma história sobre a violência televisiva, a pornografia e o cinema «snuff» ou a máxima manifestação do terror em imagens. A progressiva desmistificação dos velhos tabus sociais como o sexo, a morte ou a dor, difundidos massivamente através dos meios de comunicação, torna complicado fazer um filme que pretende precisamente chamar a atenção para este facto, visto que tudo, ou quase tudo, já foi visto pelo espectador. Por isso optou-se por não mostrar essas cenas. O espectador vê os personagens consumindo imagens de um modo quase patológico, mas nunca vê essas imagens. A força do filme radica nos diálogos e na música. Castiga-se assim o público, que antes de mais nada quer: ver.
O filme ensaia, evitando um tom didáctico, uma reflexão sobre o futuro do mercado audiovisual: a pressão mundial exercida pelo cinema norte-americano, exemplo máximo do cinema industrial, submetido aos interesses económicos; a difusão crescente do cinema «snuff» (em que as pessoas são assassinadas realmente em frente à câmera) através de circuitos de vídeo; a legitimação da violência nas notícias na TV; o domínio absoluto da imagem em deterimento da literatura; a individualização do espectador através da televisão e do vídeo; a sua insensibilização perante a imagem cruel e a sua perda de contacto com o o mundo real.
Acreditamos que Tese é um filme interessante e necessário, por ser um dos primeiros que trata directamente o tema do «snuff» e porque o seu estilo, triste e por vezes trepidante, é uma proposta pouco frequente no cinema espanhol.
(adaptado deste site)
O FILME:
Tese ou Tesis, no original, data de 1993 e é a primeira longa de Amenábar e conheceu, desde logo, um sucesso retumbante. Considere-se que foi nomeado para oito Goyas, os prémios máximos do cinema espanhol, e venceu em sete categorias, entre elas Melhor Argumento, Melhor Montagem, Melhor Novo Realizador e Melhor Filme. Foi nomeado para o prémio máximo do nosso Fantas e ganhou mesmo o troféu maior noutro festival de cinema fantástico e de terror, o Festival Internacional de Filme Fantástico de Bruxelas. A actriz principal foi também distinguida noutras homenagens. Sendo uma estreia, com a mão-cheia de prémios que facilmente arrebatou, só se podia ler aqui o prenúncio de um grande nome.
O REALIZADOR:
Alejandro Amenábar nasceu em 1972, no Chile, mas foi para Espanha apenas com um ano de idade. Frequentemente realizador e argumentista, simultaneamente, ele é também compositor, tendo a sua banda-sonora para La Lengua de las Mariposas, de José Luis Cuerda (1999) recebido inclusive uma nomeação para os Goya. Depois de duas curtas (Himenóptero (1992) e Luna (1995)), Amenábar realizou Tese, consolidando-se como um profissional do thriller. Em 1997 filma Abre Los Ojos, com Penélope, película que inspiraria mais tarde o bem sucedido Vanilla Sky, também com a mesma Penélope. Em 2001, The Others, com Nicole Kidman, a sua estreia na direcção de filmes de língua inglesa, corre extremamente bem, sendo o filme galardoado com uma série de distinções, inclusive o Goya de Melhor Filme, o segundo do realizador, que, porém, repetiria o feito ao vencer em 2004 com Mar Adentro, com Javier Bardem, filme que gozou de grande projecção internacional e virtude do seu tema: a eutanásia. A fita venceu mesmo o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, entre muitos outros prémios. De momento, não se sabe ainda qual será o próximo projecto do realizador, mas não se torna difícil adivinhar que, se não desonrar os seus predecessores, será também uma grande peça de cinema.
TRAILER:
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