domingo, 2 de março de 2008

25/02: "Fala Com Ela", de Pedro Almodóvar (2002) - Review

TINHA VERGONHA (como num daqueles pesadelos em que estamos nus diante da turma) de confessar, embaraçado, que não conhecia nada de Almodóvar. Ela, no jardim, corrigiu-me o erro, redimindo com o gesto aqueloutra que, diz o mito, noutro botânico nos levou ao primeiro engano (a história sente sempre a necessidade de se corrigir, como uma comichão qualquer). Ofereceu-me o dvd, embrulhado em desculpas despropositadas pelo atraso da prenda. Prometi-lhe que o via ainda naquele mesmo fim-de-semana: mas eu sou um mentiroso, e nunca se deve confiar em mim. Lembrei-me do ciclo espanhol, propus passar o filme e, quando chegou a segunda, sentei-me defronte do ecrã, a cumprir (também eu atrasado - como disse, a história gosta muito de se reequilibrar e fazer as coisas quites) a minha promessa.

Fala Com Ela
foi um bom primeiro Almodóvar. Não negarei que, mais que tudo, foi muito a estória que sedentarizou o meu agrado pelo filme (ganhou um óscar por isso, de resto). Demorou tempo a conquistar-me, mas quando o fez, fê-lo com convicção. Drama de gente muito humana, cantiga de amor nada simples, gordinha de ambiguidades, a coisa equilibra-se numa tragédia intimista onde morte e vida coabitam, onde a própria morte e vida são ambíguas (o que é o estado de coma, senão uma mistura mal feita e triste das duas?). As duas dançam entre si (e o filme começa e acaba com um espectáculo de dança). Morte cede lugar à vida, vida à morte - e a tecer tudo isto o amor, essa coisa complexa e maluca, desproporcionada, terrível também. No meio de tudo isto, resta espaço à amizade, como contraponto à solidão: a relação entre os dois protagonistas é, de facto, uma das coisas mais gratificantes de ver na fita, de tão honesta e improvável. O fala com ela é muito um fala com ele.
É um filme que, imagino, deverei rever, algures no futuro. Vai-se aninhando pouco a pouco no espírito, como um canguru na bolsa da mãe: em breve, há-de ser capaz de dar grandes saltos. Mau grado o que comecei por dizer, Almodóvar não é só um argumentista inspirado, é também um bom realizador e alguns planos ainda os tenho na memória (como quando Lydia espera o touro que a colherá). Um momento, contudo, é único, uma dádiva de génio (um pouco como a fantasia de Bonham-Carter no recentíssimo Sweeney Todd de Burton): a curta dentro do filme, El Amante Minguante. Penso que esse foi o momento em que, de uma vez por todas, o filme, de facto, se me impôs e me obrigou a respeitá-lo, inclinando a cabeça em sinal de reconhecimento da sua arte. Deixo-vos abaixo essa sequência que podem ver sem grande prejuízo: não se trata de um spoiler, mesmo se decorre já a meio do filme. Perversamente erótico, há algo de absolutamente delicioso nestes poucos minutos loucos. Apreciai:



imagem: Almodóvar e Rosario Flores (Lydia),
na rodagem de Habla Con Ella

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