segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Espreitadela: "Apocalypse Now", A Poucos Dias


Francis Ford Coppola leva-nos para o Cambodja e para os seus rios sangrentos, autênticos campos de batalha, em plena Guerra do Vietname.

Embora cheio de pormenores e detalhes, a história é simples: a subida do rio por um barco patrulha norte-americano até ao interior da selva, para matar o Coronel Kurtz (Marlon Brando), aparentemente louco, por se ter tornado no sangrento, mas venerado líder de uma “tribo” de nativos.

Repleto de excelentes actores (Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Laurence Fishburne – com apenas 14 anos -, Harrison Ford, Dennis Hopper…) e densas e peculiares personagens, Coppola oferece-nos monólogos e cenários que nunca mais poderemos esquecer, desde “surf” em praias a ser bombardeadas, “coelhinhas” e poderosos “napalm” (ao som de Doors), até à tão mágica Cavalgada das Valquírias, de Wagner.

Baseado na obra Heart of Darkness, de Joseph Conrad, Coppola demorou três anos para finalizar este filme, iniciado em 1976, tendo uma segunda versão de 2001 chamada Apocalypse Now Redux, reeditado pelo mesmo, com 197 minutos, 44 minutos a mais de cenas adicionais.

Nomeado para 8 Óscares, venceu 2, o de Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som (1980) e ganhou também a Palma de Ouro em Cannes (1979), bem como 3 Globos de Ouro (Melhor Realizador/Director: Francis Ford Coppola; Melhor Actor Secundário: Robert Duvall; e Melhor Argumento Original), entre outros prémios e nomeações.

Um filme de culto, uma obra-prima a não perder!

texto de Henrique Gomes

domingo, 30 de novembro de 2008

2/12: "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola (1979) - Apresentação


A HISTÓRIA:
O filme segue a missão top secret do coronel Benjamin L. Willard (Martin Sheen), encarregue de assassinar Kurt (Brando), um coronel americano no Vietname que se refugiou no coração da selva cambodjiana, depois de endoidecer (assim contam os relatórios do exército), sendo adorado como um deus pelos nativos, que formam o seu exército particular. Willard começa na foz do imaginário rio Nung e, à medida que o filme progride, ele, juntamente com a sua reduzida equipa (todos ignorantes da verdadeira missão de Willard), vão mergulhando nas trevas, enfiando-se mais e mais terra adentro, rio adiante, numa descida ao abismo da loucura do homem e da guerra.

O FILME:
Hesito no que escreva: como fazer justiça ao que é, indubitavelmente, um dos maiores filmes do cinema? Se não está entre os meus favoritos, no pequeno top7 na barra lateral do blogue, é porque me impûs o critério mentiroso de não repetir, nessa lista concisa, um único realizador, e Coppola já aparece aí representado pel' O Padrinho (1972). Não fora isso, e Apocalypse Now estaria sem dúvida naquele restrito panteão pessoal. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, a estória da produção do filme é tão mítica como o próprio, tendo dado a um famoso documentário sobre o assunto. Apocalypse Now é um livro que não cansa ler, onde se acha, a cada releitura, novos significados, novas camadas. Melhor filme de guerra de sempre que é simultaneamente melhor crítica à guerra, é uma viagem alucinante à loucura, ao homem animal, às trevas (um dos livros fundamentais para o argumento foi O Coração das Trevas, de Conrad). Não se pode subestimar um filme destes, que tem aquela que, para mim, continua a ser a melhor cena de cinema de todo o sempre, exemplo perfeito do que eu chamo "montagem intelectual sonora" (perdoem o calão cinematográfico): a cavalgada das valquírias. Clássico consumado, Brando, a meu ver, chega a superar-se aqui, com o seu Kurtz a ultrapassar o seu Corleone (mas sei que a afirmação é altamente discutível). Coppola revela aqui toda a sua mestria enquanto escritor e realizador. Tão perfeito, meu Deus, tão perfeito. Condições ideias para ver o filme: noite de verão a ferver, depois da meia-noite, com princípios de febre.

O REALIZADOR:
Coppola é universalmente reconhecido como um dos maiores realizadores de todo o sempre. A sua carreira não é linear, mas o seu espírito é o mesmo, um espírito bom e simples, um visionário lutador, um homem criança com um olhar maduro (uma juventude sem juventude, para usar o título do seu último). Coppola faz parte daquela geração milagre do cinema americano nos anos 70, dos movie brats, em que os estúdios se abriram a novas tendências, a jovens realizadores americanos influenciados pelo cinema europeu em ebulição (Spielberg, Lucas, Scorsese, Kubrick, just to name a few). Coppola foi primeiro reconhecido como argumentista, tendo ganho o Óscar nessa categoria por ter escrito Patton (1970). E depois aconteceu o milagre: O Padrinho (1972). Como tanta confiança e liberdade foram postas num indivíduo quase desconhecido só pode, de facto, merecer o nome de milagre (e basta ver os extras do filme para se perceber que a coisa não foi fácil). Depois veio o Padrinho II (1974), mas pelo meio ganhou a Palma de Ouro com The Conversation (1974). Coppola rapidamente ganhou interesse pela produção, fundando a Zoetrope, que lançou Lucas, com o seu THX 1138 (essa obra-prima esquecida, em nada semelhante ao que Lucas faria depois). Coppola triunfaria de novo com Apocalypse Now, arrecadando a Palma de Ouro. Em 1982, porém, Coppola cavou a sua cova, lançando One From The Heart, um musical em que se investiu completamente. O filme foi um fracasso total e obrigou Coppola a realizar vários filmes durante as duas décadas seguintes para pagar as suas dívidas (são destas décadas que datam a maioria dos seus filmes ditos menores, ou mesmo fracos). Os anos 90, no entanto, veriam um certo ressurgir da sua popularidade, com o Padrinho III (1990) e Drácula (1992). Estes filmes salvaram-no da bancarrota. Muito recentemente realizou Segunda Juventude (2007), um filme íntimo, independente e pessoal. Encontra-se de momento a trabalhar em Tetro, com estreia prevista para 2009 e que se imagina um regresso às grandes sagas de família, com Buenos Aires como pano de fundo.

O TRAILER:

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

25/11: "O Meu Pai Partiu Em Viagem De Negócios", de Emir Kusturica (1985) - Apresentação


O FILME:
O título do filme é na realidade um eufemismo: por causa da conturbada relação entre a Jugoslávia e a URSS (que se consolidaria numa cisão oficial entre os dois países), nesse período perigoso, vários cidadãos "desapareciam" a meio da noite (levados pela polícia política, claro). Um deles é Miki Manojlovic, o pai de Moreno D'E Bartolli, de seis anos. A estória é contada do ponto de vista do miúdo. Quando Manojlovic, funcionário do ministério do trabalho, "desaparece", a sua família reage com orgulho, assegurando o rapaz e toda a gente que ele está simplesmente "em viagem de negócios". Na realidade, este encontra-se preso pelas suas aventuras sexuais. O filme acompanha as tribulações da família e os esforços para sobreviver na miséria comunista.
(traduzido e adaptado daqui)

O FILME:
O filme, a segunda metragem de Kusturica, permitiu-lhe arrecadar a Palma de Ouro em Cannes (a sua primeira). O sucesso do filme foi tal que foi inclusive nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e para o Globo de Ouro na mesma categoria.

O REALIZADOR:
[ver post anterior]

O TRAILER (em sérvio, sem legendas: é o melhor que se arranja!):

domingo, 16 de novembro de 2008

18/11: "Underground - Era Uma Vez Um País", de Emir Kusturica (1995) - Apresentação

A HISTÓRIA:
Não é ao acaso que o filme é subintitulado Era Uma Vez Um País. Underground é, acima de tudo, um relato tragicómico, em forma de sinédoque, do destino da Jugoslávia a partir da II Guerra Mundial até ao presente (em que o presente é, aqui, 1995, obviamente). É como que um épico nacional, uns lusíadas filmados. A acção centra-se em dois amigos em que um engana o outro, não lhe revelando que a II GM acaba, antes insistindo nessa ficção (à la Goodbye, Lenin!). O enganado vive debaixo de terra, num refúgio anti-aéreo onde, juntamente com toda mais uma tribo, se dedica a produzir armas para a resistência (resistência nenhuma, que a guerra já bateu a bota há muito). O amigo que ficou na superfície aproveita-se desta produção alternativa e barata para entrar no tráfico de armas, enriquecer e conquistar um lugar na vida pública. O filme é, naturalmente, muito mais que isto, uma viagem por um país e pela geografia das almas tresloucadas e ciganas daquelas gentes. O que acima se disse é como que um pontapé de saída, a premissa básica da coisa: o filme, esse, é um delírio que explode em todas as direcções todas as emoções.

O FILME:
Underground valeu a Kusturica a segunda Palma de Ouro, depois de O Meu Pai Partiu Em Viagem De Negócios (a exibir para a semana). Raríssimos são os realizadores que se podem orgulhar de tal feito. Com praticamente três horas de duração, o filme tinha inicialmente 320 minutos (aliás, ele foi exibido como um mini-série de cinco horas na TV sérvia). Hoje universalmente reconhecido como uma obra-prima, o filme de Kusturica é incontornável.

O REALIZADOR:
Kusturica, nascido em 1954 em Sarajevo, é muito possivelmente o realizador mais conhecido dos Balcãs e aquele que lhes tirou melhor o espírito para o pôr nos filmes. O seu início de carreira foi assaz auspicioso: com o seu primeiro filme, Lembras-te de Dolly Bell? (1981), ganhou o Leão de Ouro em Veneza (pronto, há gente que tem sorte - ou génio); com o seu segundo, O Meu Pai Partiu Em Viagem de Negócios (1985), ganhou a Palma de Ouro. Seguiram-se dois dos seus maiores (caramba que na filmografia dele é difícil achar menores): Underground e Gato Preto, Gato Branco (1998), que o tornou num ícone pop entre os jovens ocidentais, promessa que seria confirmada com A Vida É Um Milagre (2004). Ainda não lançado em Portugal, Promise Me This (2007) não tem conhecido o sucesso dos anteriores, bem pelo contrário. Já este ano lançou um documentário sobre Maradona (exibido em Portugal no DocLisboa). Nada se conhece ainda do próximo projecto. Nota final (repare-se no uso da palavra apropriada, «nota»): Kusturica, o músico.

O TRAILER:

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

11/11: "A Dama de Xangai", de Orson Welles (1947) - Apresentação

A HISTÓRIA:
Michael O'Hara, um marinheiro (interpretado por Welles), é contratado como membro da tripulação do iate de um abastado advogado, Banister (Everett Sloane). A mulher deste, a bela mas misteriosa Elsa (Rita Hayworth), já travara conhecimento com O'Hara, que a havia salvo de ser assaltada, aquando da chegada desta a NY. O casal encontra-se a caminho de São Francisco via Canal do Panamá. O que se segue é uma complicada intriga, em que O'Hara, apesar da sua inocência, se vê acusado de assassínio. O argumento, aparentemente simples e até curriqueiro (quantos filmes já não partiram da premissa do homem falsamente acusado?), esconde na realidade uma estória intrincada, que os espectadores nem sempre têm facilidade em perceber, pela sua complexidade (ou simplesmente, como já alguém argumentou, porque Welles, preocupado com os aspectos técnicos e a beleza das imagens, pura e simplesmente não deu ao guião a atenção necessária).

O FILME:
Incursão de Welles pelo bom género do film noir, o filme merece que se conte a sua lenda. Estando, na altura, a trabalhar numa adaptação cómica da Volta ao Mundo em 80 Dias para teatro, Welles, que precisava urgentemente de dinheiro, telefonou ao presidente da Colombia Pictures, pedindo $55.000, prometendo, em troca, escrever, realizar e produzir um filme para ele gratuitamente. Na ocasião, sob a pressão do momento, sugeriu que o filme fosse baseado no livro que a empregada da bilheteira se encontrava a ler na altura - A Dama de Xangai - que ele próprio, de resto, nem sequer lera antes. Diga-se de passagem que os estúdios da Colombia Pictures não ficaram muito satisfeitos com o resultado final, cortando cerca de uma hora da versão original do realizador. Mas a estória do filme não termina: supostamente parte desses cortes ficaram a dever-se ao caso Dália Negra (conhecido de muitos graças ao penúltimo De Palma), pois parece que várias dessas cenas cortadas faziam referências a um caso semelhante (isto continua a acontecer: a estreia de V for Vendetta (2006) foi adiada por causa dos atentados de Londres).

O REALIZADOR:
Orson Welles (1915-1985) é considerado universalmente um dos maiores génios de sempre da sétima arte, com Citizen Kane (1941) - a ser exibido pelo CADC Cinema já na próxima semana, dia 4/11 - a ser considerado repetidamente por muitos críticos como o melhor filme de sempre (discordamos, mas reconhecemos a tremenda genialidade da obra). Welles é também conhecido pela maioria das pessoas pela sua celebérrima adaptação radiofónica da Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, que pôs meia américa a fugir de uma falsa invasão de marcianos. Com uma personalidade larger-than-life, o seu breve casamento com Rita H., foi particularmente mediático. Mau grado o seu sucesso póstumo, a verdade é que, em vida, foi sempre um outsider, tendo sempre de lidar com problemas de falta de dinheiro ou estúdios patetas e caprichosos. Welles não foi muito feliz, de facto, e acabou a vida obeso como um pavaroti. As suas obras e sua lenda, porém, continuam, inspirando todo aquele que delas se aproxima.

O TRAILER (não é grande espingarda, mas dêem o desconto: acham quem em 1947 eles sabiam fazer trailers?)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

21/10: "O Homem Elefante", de David Lynch (1980) - Apresentação

A HISTÓRIA:
Dramalhão pesado, O Homem Elefante baseia-se no caso real de Joseph Merrick (no filme chamado de John), que sofria de uma doença que lhe desfigurava completamente o rosto. Mostrado em feiras como uma curiosidade (monstro, aliás, etimologicamente, vem daí: é aquilo que se mostra; monstrare em latim), é resgatado por um médico que, movido primeiro meramente por um interesse clínico no seu caso, acaba por desenvolver uma real compaixão para com a situação de John, que se revela, de resto, profundamente culto e intruído. O filme relata a relação dos dois e o processo de aceitação (ou não) de Merrick na sociedade.

O FILME:
Altamente bem sucedido, a segunda longa-metragem de Lynch foi nomeada para oito Óscares, incluindo Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor Montagem. A caracterização de John Hurt (Merrick) era de tal forma impressionante que a Academia resolveu, daí em diante, instituir um Óscar para o Melhor Make-up (tudo tem uma história). Vencedor do BAFTA para Melhor Filme, O Homem Elefante é louvado como um dos melhores de Lynch e a deixa (também tagline) "I'm not an animal! I'm a human being!" é frequentemente listada entre as melhores falas de sempre.

O REALIZADOR:
[ver post anterior]

O TRAILER:

sábado, 4 de outubro de 2008

14/10: "Uma História Simples", de David Lynch (1999) - Apresentação

Até ao Natal corremos o nosso ciclo dedicado a grandes realizadores. O nosso objectivo foi, tanto quanto possível, escolhendo dois filmes de um realizador importante, mostrar como este podia produzir obras assaz diversas. Não significa isso, de modo algum, que tenhamos então, de forma fácil, escolhido, para cada realizador, uma comédia e um drama; apenas quisémos proporcionar dois olhares distintos sobre a obra, permitindo ao espectador entender a complexidade do homem e do seu trabalho. É essa multiplicidade de géneros e abordagens que, no fundo, define um grande realizador. O primeiro escolhido: Lynch.

A HISTÓRIA:
O filme centra-se na personagem de Alvin Straight (o que proporciona a brincadeira do título original: The Straight Story - Uma História Simples mas também A História de Straight), que, depois de saber que o seu irmão - de quem há muito se desligara emocionalmente - sofreu um avc, resolve ir visitá-lo, na esperança de conseguir falar com ele antes que morra. Alvin, um veterano da II Guerra Mundial, não tem, contudo, devido à sua insuficiência motora e a problemas de visão, possibilidade de ter uma carta de condução, pelo que resolve fazer toda a longa viagem de 240 milhas num pequeno tractor de relva. O filme acompanha a sua odisseia e os seus múltiplos encontros pelo caminho.

O FILME:
Filme profundamente atípico dentro da filmografia lynchiana (foi distribuído pela Walt Disney, imagine-se!), Uma História Simples estreou em Cannes e é a única película de Lynch cujo próprio não escreveu. Richard Farnsworth foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor - perdeu aí, mas ganhou o Independent Spirit Award pela sua comovente e verídica encarnação de Straight.

O REALIZADOR:
Resumir Lynch em poucas palavras é difícil. Homem ds sete ofícios, realizador, argumentista, músico, pintor, ele é o responsável por Twin Peaks, série que, por sua vez, é responsável por todas as boas séries que tivémos/temos esta década (a começar por Lost, cujos criadores se ajoelham perante o mistério da morte de Laura Palmer). Realizador de culto, li um dia num qualquer blogue de cinema (perdoe-me o escriba cujo nome não lembro agora) que a sua cabeça devia ser como a Disneyland, mas ao contrário. Criador de filmes estranhos, oníricos e profundamente pessoais e inesquecíveis, é o responsável por obras como Mulholland Drive (2001) e Inland Empire (2006), apenas para referir os seus dois mais recentes sucessos. A sua consagração, porém, aconteceu com Blue Velvet/Veludo Azul, em 1986. Várias vezes nomeado para o Óscar, ganhou a bem melhor Palma de Ouro com Coração Selvagem (1990). Entendam-se estas linhas como apenas uma introdução à personagem: ao cinéfilo deixamos a tarefa de descobrir essa peculiar, mas fundamental obra.

O TRAILER:

Recomeço

"We'll be back", prometemos.

Aqui estamos, regressados, para ex(er)citar a paixão cinéfila.
(todos bem-vindos: meninos, meninas e coelhos gigantes)

Temos uma mão cheia de coisas boas para oferecer,

Filmes aprovados pelo público e pelos críticos:

Razões suficientes para um sorriso nessa cara.

Mudança: as sessões são agora às terças-feiras, 21:00.
(o local, o mesmo: Justiça & Paz, no cimo da Couraça de Lisboa.)

Vens ou não - blue pill/red pill?
(a toca do coelho espera-te - e nós também)

(p.s.: quem adivinha o filme de cada imagem?)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Intervalo

E PRONTO. Assim se encerra um ano de cinema no Justiça & Paz, que, na medida do possível, procurámos acompanhar através deste humilde blogue, que agora descansa também. Foi um projecto que resultou por vezes bem, por vezes pior. Outras vezes ainda não resultou de todo, como nestes últimos meses, em que os exames nos proibiram de escrever aqui e ir dando conta dos ciclos que, apesar do silêncio do blogue, continuavam a decorrer. Tínhamos ideias mais ambiciosas para este espaço, mas a realidade fica sempre aquém do sonho. Este foi também o primeiro ano: quiçá as próximas aventuras serão mais bem-sucedidas? Há sempre que almejar mais, mesmo quando os meios são poucos. A todos aqueles que nos seguiram fielmente (se ainda há quem sobreviva dessa tribo após este silêncio demorado de mês e meio), o nosso profundo obrigado. Esperem por Outubro: aí, a Primavera dos ciclos, o recomeço das coisas, o novo princípio da paixão cinéfila que nos une.

sábado, 10 de maio de 2008

12/05: "Amor Cão", de Alejandro González Iñárritu (2000) - Apresentação

OUVE-SE ESPANHOL de novo, mas a terra é outra: México. Já antes tínhamos atravessado o Atlântico, para o Brasil. De toda a América Latina, contudo, será, de facto, o cinema mexicano aquele que conhece a maior projecção internacional, mercado de exportação de grandes realizadores e boas obras, bem como, acrescentamos, alguns excelentes actores. (A nossa curiosidade mexicana pessoal, de momento, é esta, que não adivinhamos como arranjar). Embarquemos pois nesta viagem que a Queima podou de mais um porto, segunda passada, em que o projector guardou silêncio e a luz, na noite, não se fez.

A HISTÓRIA:
Como é normal em Iñárritu, temos três fios narrativos que, dalgum modo, se ligam. Por um lado, é-nos apresentado Octavio, que está a tentar juntar dinheiro para fugir com a cunhada e decide entrar no submundo das lutas de cães com o seu cão Cofi. Depois de uma destas lutas correr mal, Octavio foge de carro, desrespeitando um sinal vermelho e causando um acidente grave. Assim, a recente felicidade de Daniel e Valeria (personagem 2) é prematuramente truncada quando ela perde a perna no acidente. El Chivo (personagem 3), por sua vez, é um sem-abrigo com uma afeição especial por cães vadios e que assiste ao acidente. As vidas destas três (quatro) personagens vão-se todas fatalmente entrecruzar.

O FILME:
Amor Cão foi extremamente bem recebido para primeira longa. Ganhou o BAFTA para Melhor Filme em Língua Não Inglesa, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e para um Globo de Ouro na mesma categoria, triunfou no Fantas, e mesmo Cannes o reconheceu, com o Prémio da Crítica. Dentro de portas, ganhou o prémio máximo, o Ariel de Ouro (os óscares mexicanos). No top #250 do IMDB mantém-se na confortável posição de #145. Ah, e não esqueçamos que conta com o grande Gael García Bernal.

O REALIZADOR:
Iñárritu, depois de Babel (2006), é já conhecido de todos, mesmo se os mais atentos, aqui por Portugal, já lhe seguiam há muito a carreira. Nascido em 63, na Cidade do México, começou, admirem-se!, a carreira como DJ. Começou primeiro por fazer música para filmes até enveredar pela realização, estreando-se com o filme já desta segunda. Tem um certo historial de curtas, donde se destaca a partipação para dois projectos colectivos, The Hire (2001) e 11'9''01 September 11 (2002). O sucesso de Amor Cão foi tal que se mudou logo para Hollywood onde realizou outras duas películas de grande sucesso, 21 Gramas (2003) e Babel (2006). Entretanto, colaborou para o projecto Chacun Son Cinéma (2007), com a curta Anna.

O TRAILER:

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Culpas & Desculpas

SE TIVÉSSEMOS um contador instalado no blogue, poderia fazer uma estimativa de quantos leitores, enganados, terão aqui passado ao longo do mês que se fechou ontem, em busca de informações sobre os filmes que fomos exibindo. Chegaram - e eis que, contra a promessa que lhes fora feita, encontraram tudo igual. A razão da estagnação é simples: o zeloso escriba deste blogue achou-se todo este tempo sem rede, por incompetência do seu operador, um anfíbio verde. Perdoem-me se escrevo poucas linhas sobre o assunto, mas quem já atravessou experiências semelhantes sabe a dimensão do trauma. Resolvido o assunto, prometemos em breve retormar a actividade, aproveitando para avisar que próxima segunda-feira, em virtude dessa oktoberfest coimbrã que é a queima, não será exibido filme algum.

domingo, 6 de abril de 2008

07/04: "Epidemia", de Lars Von Trier (1987) - Apresentação

CONFESSO-ME NÓRDICO. "The west is the best", cantava o Rei Lagarto. A mim, porém, sempre foi o norte que me alcançou o coração. Prefiro o Porto a Lisboa. Se o mundo fizesse sentido, eu teria nascido irlandês e não no Mediterrâneo. Deus me livre de morrer sem ver os fiordes da Noruega. Tolstoi ensinou-me a amar a Rússia com os seus casacos de pele. Na América, ia primeiro a Chicago que a Nova Iorque. O Tibete livre continua um desejo que nunca irei realizar, porque me recuso a ter de obter uma autorização do governo chinês para aceder a regiões onde não reconheço a soberania dele. Nunca me atraíram de sobremodo as praias exóticas do Sul como a tantos: caraíbas, rios, cubas, madeiras. Dois países só, por estórias diferentes, me conquistaram, para baixo da linha do equador: peter jackson e a sua trilogia ensinaram-me a amar a antípoda nova zelândia (para onde, lembro-me de o dizer, iria morar com a minha bicicleta vermelha); pratt e borges educaram-me o gosto pela argentina, e gotan project infiltrou-me o tango nos sonhos. Sou nórdico de adopção, portanto. Este novo ciclo, que o Epidemia do Von Trier estreia, dedicado ao cinema escandinavo é uma oportunidade de conhecer a produção desses países, que raramente escoa para as salas de cinema portuguesas. E não podia haver melhor inauguração do que esta, com aquele que, quantos me conhecem o sabem, é, para mim, o maior realizador vivo. Mas adiante darei largas à minha religião cinéfila.

A HISTÓRIA:
Sob pressão para cumprir o prazo que lhes foi imposto pelo Instituto de Cinema Dinamarquês, um escritor e um realizador (o próprio Von Trier e o seu co-argumentista) descobrem que não podem recuperar do computador o guião em que trabalharam mais durante um ano inteiro, por isso vêem-se forçados a começar um novo de raíz para apresentar dentro de cinco dias. O novo guião intitula-se Epidemia, e vai progressivamente ganhando forma, inspirado pela pesquisa de relatos de pragas que ambos levam a cabo na Biblioteca da Universidade. Num país infectado por uma epidemia terrível, a nação é governada por um grupo de médicos fechados numa casa, em segurança - até um deles planear sair. Os dois amigos conseguem escrever um guião de doze páginas para apresentar, mas, durante um jantar, um visitante inesperado ameaça esbater a distância entre o filme sonhado e o mundo real.

O FILME:
Epidemia (1987) surgiu de um desafio entre Lars von Trier e Claes Kastholm do Instituto de Cinema Dinamarquês (equivalente ao nosso ICAM). Von Trier apostou, para conseguir obter financiamento para outro filme (o seu louvado Europa (1991)), que conseguia fazer um filme com menos de um milhão de coroas dinamarquesas. Não podemos deixar passar em branco a exibição do filme no nosso Fantas. Mal-amado, este filme, entre o horror e a fantasia, com o formalismo estético que marca o início da carreira de Trier, é visto, por alguns, como um objecto de interesse para fãs apenas, mesmo se é unânime o elogio ao final do filme. Este mau-amor, contudo, pode não ser mais do que a manifestação de incómodo de alguns espectadores. É neste filme, significativamente, que Von Trier afirma: "um filme deve ser como uma pedra no sapato".

O REALIZADOR:
Não sou a pessoa certa para falar de Von Trier: a minha opinião está, a priori, viciada. Lars foi quem me abiu as portas e os olhos com o seu Dogville (2003), até hoje o meu filme favorito (mesmo se sou forçado a reconhecer que, objectivamente, é O Padrinho, de Coppola (1972), o melhor filme do mundo). Von Trier, que sempre redigiu também os seus argumentos, é um enfant terrible, um provoca(u)teur.
A sua filmografia é uma sucessão de considerações sobre o Bem e o Mal (assim mesmo, com maiúscula), profundamente coerente. Não espanta ninguém que o se próximo projecto, o filme de terror Antichrist (cujo elenco deverá ser anunciado em Cannes agora), se construa sob a premissa que o mundo, em vez de ser obra de Deus, é fruto do Diabo. Tal argumento não é mais que uma metamorfose do tema que rege a sua obra toda. Não conheço, não vi ainda Epidemia: mas por quanto já li parece-me que este filme não foge também à regra.
Duas notas essenciais que os filmes deixam adivinhar da sua mundividência: por um lado, o Bem, o verdadeiro Bem, é insuportável para o mundo, incapaz de o aceitar (isso é a moral de toda a trilogia Golden Heart (1996, 1998, 2000) do realizador); mundo este que, de resto, nem sequer está interessado no Bem (essa é a constatação terrível de Europa). Por outro lado, para Trier, o Bem é sempre destrutivo: os filmes oscilam, por um lado, entre o idealista que, na sua ânsia de tudo fazer melhor, converte-se, a longo prazo, ele mesmo na encarnação do Mal (O Elemento do Crime (1984), a primeira longa de Lars, logo estabelece isto, mas a ideia é a mesma que encontramos na trilogia USA, Land of Opportunities (2003, 2005, ?)); e, por outro, o idealista que, sendo uma encarnação tão genuína do Bem, porque só pratica o Bem, acaba por se arruinar, e levar à sua própria destruição (pense-se nas heroínas do trio Golden Heart, talvez a mais perfeita Bess em Ondas de Paixão (1996)).
Trier, porém, merece tanto destaque pelos seus argumentos, condenados a interrogar e assombrar o espectador, como pela sua técnica. A primeira trilogia, Europa, da qual Epidemia é o segundo tomo (as trilogias, convém esclarecer, estão apenas ligadas tematicamente, não a nível de história ou personagens), é talvez a mais perfeita formalmente, a ponto de alguns detractores a rotularem de exercício de estilo sem conteúdo (ideia nitidamente falsa). Por oposição, a trilogia Golden Heart é um exercício supremo de liberdade cinematográfica, onde a câmara à mão, por exemplo, predomina, exercício pautado pelo movimento Dogme, que Trier, com mais três amigos, criou (mesmo se só Os Idiotas (1998) pode ser, efectivamente, classificado de filme Dogme). A nova trilogia USA, Land Of Opportunities prima mais uma vez pelo experimentalismo, com a inexistência de cenários, reduzidos a traços brancos no chão e meia dúzia de elementos essenciais à acção.
Trier faz bem chamar-se Trier, porque ele é, de facto, um trier (ler à inglesa a palavra em itálico), ou seja, um experimentador, alguém que ousa trilhar caminhos novos incessantemente. Por isso o tenho em tão boa conta, pela sua profunda ousadia (a que alguns preferem chamar, desdenhado, orgulho balofo). Lars ou se ama ou se odeia: eu adoro-o.

NÃO-TRAILER :

domingo, 30 de março de 2008

31/03: "8½", de Federico Fellini (1963) - Apresentação

ALORA: FELLINI! Sou o primeiro a confessar que de Fellini conheço pouco ou nada (vi, e não completo, o Amarcord (1973), do qual guardo, amando, a cena do voglio una donna!), mas penso também ser essa a benção destes ciclos: irmos corrigindo as nossas falhas cinéfilas. Não negarei que estou particularmente curioso para ver este filme: aliás, amanhã exibilo-ei, mas, a bem dizer, não precisava, porquanto o César já confirmou a sua presença também, pelo que sem problemas podia ser ele o projeccionista. Eis, porém, que faço questão de, podendo, não perder esta que é tida como uma, se não mesmo a, obra-prima do realizador italiano. Apaixonei-me pelo filme graças ao pequeno clip que, no final desta apresentação, serve de trailer, que obviamente não há.

A HISTÓRIA:
O filme gira em torno de um realizador italiano, Guido Anselmi (simplesmente, o duplo no ecrã de Fellini, que deu um forte cunho autobiográfico a esta sua obra) que está a sofrer de bloqueio criativo. Supostamente estaria a realizar o seu nono filme, uma película de ficção científica, de argumento ainda baço (daí o título do filme: 8½, exactamente o número de filmes que Guido realizou, já a contar com o presente, incompleto). Guido, porém, perdeu o interesse no projecto, envolto em dificuldades criativas e pessoais. O filme constrói-se num emaranhado de flashbacks e sonhos, memórias e fantasias, que se misturam todos com a realidade, nem sempre sendo fácil destrinçá-los.

O FILME:
é considerado por muitos o melhor filme do realizador, e aparece regularmente na lista dos melhores filmes de sempre. Ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro no seu ano. No IMDB, está consistentemente na lista dos 250 melhores (actualmente, na posição #155). Levou também o galardão máximo da National Board of Review, dos EUA, e do New York Film Critics Circle. O seu mérito, porém, foi ainda reconhecido em Moscovo, onde recebeu o Grande Prémio do Festival Internacional de Cinema da cidade. Em Itália, a película foi cumulada de prémios. E não bastaria apenas dizer que é Fellini, para que não fosse preciso dizer mais nada? Recordar ainda que conta com a participação de Mastroianni e da belíssima Claudia Cardinale.

O REALIZADOR:
"Se um autor é tanto mais autor quanto o seu nome se transforma em adjectivo, Fellini é, sem dúvida, um dos maiores autores da História do Cinema. A vida dita real, essa grande imitadora da arte e da vida dos filmes, ficou desde a segunda metade do século XX, definitivamente felliniana. E se a obra de Fellini, o corpo do seu trabalho, é o conjunto dos seus filmes - cada um deles único, inconfundível e irrepetível, o espírito, estilo e personalidade dessa obra não só está presente em cada um desses filmes como naquilo que os liga e origina, o centro do universo felliniano: a grande personagem Federico Fellini. É essa a Obra Total de Fellini: a personagem do realizador e a sua autobiografia onírica. [...] São filmes ao mesmo tempo, realistas e oníricos. Obras totais que convocam o circo, a poesia, a música, a pintura e a banda desenhada, e, por fim, a própria ópera, numa coreografia puramente cinematográfica onde tudo se mistura e move por devaneio e excesso. São filmes trágicos e desesperados na forma de comédias de episódios pícaros, como as vidas reais. De filme para filme passam as mesmas obsessões - do sexo e da beleza, que podem, fugazmente, redimir a dor e a decadência. E passam as personagens excessivas, marginais, grotescas e tristes na sua desmedida euforia feérica, na sua feia beleza, na sua harmonia disforme."
Nuno Artur Silva (roubado do prefácio do volume de Fellini
da colecção Grandes Realizadores do Público e dos Cahiers)


O TRAILER (A FAZER DE CONTA):

Contrição ou "Cinema Paraíso" Nunca Existiu

A ENTRADA é curta, o erro é grande. Por falhas de comunicação entre a trindade organizadora, não foi possível exibir o Cinema Paraíso, como tinha sido publicitado, não só aqui no blogue, como, principalmente, por mail e pelos cartazes afixadas nas várias faculdades. Este ciclo italiano, como se vê, tem estado cheio de peripécias infelizes, milagre mau ainda mais estranho de compreender quando foi dos ciclos preparado com maior antecedência. Definitivamente, Deus escreve torto pelas linhas direitas.

imagem: fotograma de Expiação (2007), de Joe Wright,
filme de título apropriado para a situação.

terça-feira, 11 de março de 2008

17/03: "Cinema Paraíso", de Giuseppe Tornatore (1988) - Apresentação

CLÁSSICO CONSUMADO, Cinema Paraíso (1988) é o próximo filme a exibir no nosso ciclo italiano. Necessariamente, tinha de constar do nosso cartaz. Os que o viram, querem-no repetir; os que ainda o desconhecem (como o presente escriba), pretendem suprir essa falha. Tal é a fama da fita que se dispensava a apresentação, mas aqui se segue um rascunho de um possível b.i. do filme.

A HISTÓRIA:
Contado em flashbacks, o filme parte do regresso de Salvatore, realizador de sucesso, à sua aldeia natal, na Sicília, para o funeral do seu velho amigo Alfredo, projeccionista no cinema local, o Cinema Paraíso, que empresta o nome ao filme. Este mistura sentimentalismo e comédia, nostalgia e pragmatismo, explorando as questões da juventude, do crescimento e a forma como, já adultos, pensamos o passado (que é o filme, na sua estrutura de analepses, senão isso?). Cinema Paraíso é também e muito uma homenagem ao cinema: é como projeccionista, em miúdo, que o pequeno Totò (abreviatura de Salvatore) desenvolve a sua paixão pelos filmes, que acaba por moldar toda a sua vida adulta.
(a partir daqui)

O FILME:
Cinema Paraíso foi universalmente aclamado, pela crítica e pelo público. O lado mais visível desse reconhecimento terá sido, por um lado, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Grande Prémio do Júri, em Cannes. Poderíamos no entanto referir as vitórias nos BAFTA (melhor filme estrangeiro, melhor argumento original, melhor banda-sonora, melhor actor - entre outros) ou os Globos de Ouro (melhor filme estrangeiro). E esta é ainda e tão só uma amostra dos variados galardões com que o filme foi cumulado. Ainda hoje encontra-se em #94 no top 250 do IMDB. Em 2002 foi lançada a versão de realizador, com 173 minutos.

O REALIZADOR:
Nascido em 1956, perto de Palermo, Giuseppe Tornatore desde a juventude que manifestou o seu interesse pela representação e o teatro. Daí fez o salto para o cinema, tendo-se estreado com um documentário sobre as minorias étnicas na Sicília. Trabalhou então para a RAI antes de em 1986 lançar o seu primeiro filme, Il Camorrista. Conquistou fama internacional com Cinema Paraíso. Desde então tem lançado vários outros filmes que têm ajudado a cimentar a sua posição no seio da indústria cinematográfica italiana, dos quais destacamos La Leggenda del Pianista sull'Oceano (1998) (uma amiga minha já há uns anos mo recomendara vivamente) e Malèna (2000), que apresentou a Monica Belluci às audiências americanas (preparando-a para uma carreira fulgurante). O seu último trabalho, galardoado com o David de Melhor Filme, foi La Sconosciuta (2006). Encontra-se presentemente a rodar Baaria - La Porta Del Vento.

TRAILER:

Peripécias de Uma Exibição: De "Senso" a "Mamma Roma"

ORGANIZAR CICLOS não é tarefa fácil. Das dificuldades da missão já muitas vezes demos aqui conta. O presente ciclo italiano foi até preparado com alguma antecedência, o que, contudo, não evitou que, ontem, o Senso (1954), de Visconti, prometido nos cartazes afixados, tivesse de ser substituído pelo Mamma Roma (1962) do Pasolini. É a história desta revolução que me dedico agora a partilha convosco.

Tendo-nos sido inicialmente pedido que exibíssemos O Grande Silêncio (2005), de Philip Gröning, para a actividade 24 Horas no Mosteiro, a ideia, foi, contudo, abortada posteriormente, e o filme foi exibido independentemente, no Mosteiro de Celas. Ficámos, portanto, à última da hora, com um buraco na nossa programação, que aceleradamente fomos forçados a tapar. Ocorreu-nos então exibir, como até tinha sido nosso desejo anterior, um Visconti, e daí a sugestão de Senso, que nenhum de nós, de resto, tinha visto. Procurámos verificar na FNAC se o DVD existia: o site, porém, estava em baixo nesse dia, e não pudémos confirmar a existência de uma edição portuguesa do filme, que, alas!, descobrimos depois não existir.
Fomos então ao nosso videoclube de serviço, mas, para total surpresa nossa, foi-nos revelado que nenhum Visconti existia para aluguer. Recorremos então às nossas dvdtecas pessoais: tinha na sexta anterior comprado, na colecção do Público & Cahiers du Cinéma, O Bom, O Mau e o Vilão (1966), de Sergio Leone. Apesar das suas três horas, dispûs-me a exibi-lo. Foi quando, desiludido, me apercebi de que a versão que adquirira era a inglesa: não a podia mostrar no ciclo. Fui ver que mais tinha: recebera nos anos Mamma Roma (1962), do Pasolini, meu bem-amado realizador, talvez por tanto me rever nele, o escritor-poeta que, ignorante de toda a técnica, agarra a câmara - e filma. Falei com o resto do triunvirato da organização, e assentámos na ideia.
E assim, às 21:15, para cinco almas, fecharam-se as luzes da sala, premi o play - e fiat cinema.


imagens: um dos cartazes originais de Senso
& a bela e sóbria capa do dvd de Mamma Roma da Criterion

domingo, 2 de março de 2008

03/03: "Querido Diário", de Nanni Moretti (1993) - Apresentação

SIAMO ARRIVATI. Itália tem uma das filmografias mais ricas do mundo. Escolher quatro filmes, portanto, como podem imaginar, foi um exercício complicado. O resultado, contudo, creio ter sido interessante, e diferente do habitual, certamente. Em vez de uma simples mostra da produção mais recente, fazemos uma pequena viagem pelo cinema italiano, atravessando várias décadas (de facto, este é o primeiro ciclo em que recuámos fortemente no tempo, algo que a exibição de Tese iniciara já). Passamos por grandes realizadores, dos quais a seu tempo falaremos: Visconti, Fellini, Tornatore e Moretti. É precisamente por este que começamos, já amanhã, no sítio habitual.

A HISTÓRIA:
"O filme conta-se em três capítulos: no primeiro, Moretti deambula pelas ruas de Roma, descobrindo fachadas, indo ao cinema, visitando o lugar onde Pasolini foi assassinado; no segundo, um cenário de ilhas paradisíacas transfigura-se em espaço de "infernal" humor, com todas as relações sociais em crise delirante; no último, Moretti fala da sua experiência com a doença. Ponto comum a todos os capítulos? Um cineasta que filma na primeira pessoa, não para afirmar a verdade da sua visão, antes sublinhando a singularidade do seu "eu", desse lugar a partir do qual adquire os contornos de uma solidão irredutível."
João Lopes, Expresso (retirado daqui)

O FILME:
Quando Moretti faz Querido Diário (1993) tem já um lugar destacado no cinema italiano: veja-se todo o seu catálogo de filmes anteriores. Querido Diário foi reconhecido como mais uma confirmação da promessa que Moretti já deixara de constituir, por se ter, entretanto, afirmado como certeza. O filme foi nomeado para a Palma de Ouro e Moretti ganhou mesmo o prémio de melhor realizador em Cannes. O filme venceu também o David di Donatello (o equivalente italiano dos Césares franceses, ou dos BAFTA britânicos, ou dos Goya espanhóis, ou dos Óscares americanos) não só de melhor filme como também de melhor música, tendo sido nomeado noutras categorias, como melhor argumento e melhor realização. O filme teve uma continuação, Aprile (1998).

O REALIZADOR:
Giovanni Moretti nasceu em 1953 e é bem possivelmente, ao lado de Benigni, o realizador mais conhecido dos novos cineastas italianos. Chamado por muitos de Woody Allen italiano, deve o epíteto justo ao facto de os filhos serem frequentemente atravessados por um tom cómico e ser actor na maioria deles (Moretti, aliás, tem uma carreira como actor bem consolidada: a sua última estreia foi Caos Calmo, de Antonio Grimaldi. Quando estive em Itália agora no Carnaval via os cartazes por todo o lado). Em 2001 consagrou-se ao ganhar a Palma de Ouro com O Quarto do Filho. Recentemente, estreou O Caimão, uma crítica feroz ao governo Berlusconi (que, para mal dos nossos pecados, eis que volta a ter reais possibilidades de voltar a governar). De resto, as posições políticas de Moretti sempre foram bem conhecidas. É co-proprietário de uma pequena sala de cinema em Roma, onde habita.

25/02: "Fala Com Ela", de Pedro Almodóvar (2002) - Review

TINHA VERGONHA (como num daqueles pesadelos em que estamos nus diante da turma) de confessar, embaraçado, que não conhecia nada de Almodóvar. Ela, no jardim, corrigiu-me o erro, redimindo com o gesto aqueloutra que, diz o mito, noutro botânico nos levou ao primeiro engano (a história sente sempre a necessidade de se corrigir, como uma comichão qualquer). Ofereceu-me o dvd, embrulhado em desculpas despropositadas pelo atraso da prenda. Prometi-lhe que o via ainda naquele mesmo fim-de-semana: mas eu sou um mentiroso, e nunca se deve confiar em mim. Lembrei-me do ciclo espanhol, propus passar o filme e, quando chegou a segunda, sentei-me defronte do ecrã, a cumprir (também eu atrasado - como disse, a história gosta muito de se reequilibrar e fazer as coisas quites) a minha promessa.

Fala Com Ela
foi um bom primeiro Almodóvar. Não negarei que, mais que tudo, foi muito a estória que sedentarizou o meu agrado pelo filme (ganhou um óscar por isso, de resto). Demorou tempo a conquistar-me, mas quando o fez, fê-lo com convicção. Drama de gente muito humana, cantiga de amor nada simples, gordinha de ambiguidades, a coisa equilibra-se numa tragédia intimista onde morte e vida coabitam, onde a própria morte e vida são ambíguas (o que é o estado de coma, senão uma mistura mal feita e triste das duas?). As duas dançam entre si (e o filme começa e acaba com um espectáculo de dança). Morte cede lugar à vida, vida à morte - e a tecer tudo isto o amor, essa coisa complexa e maluca, desproporcionada, terrível também. No meio de tudo isto, resta espaço à amizade, como contraponto à solidão: a relação entre os dois protagonistas é, de facto, uma das coisas mais gratificantes de ver na fita, de tão honesta e improvável. O fala com ela é muito um fala com ele.
É um filme que, imagino, deverei rever, algures no futuro. Vai-se aninhando pouco a pouco no espírito, como um canguru na bolsa da mãe: em breve, há-de ser capaz de dar grandes saltos. Mau grado o que comecei por dizer, Almodóvar não é só um argumentista inspirado, é também um bom realizador e alguns planos ainda os tenho na memória (como quando Lydia espera o touro que a colherá). Um momento, contudo, é único, uma dádiva de génio (um pouco como a fantasia de Bonham-Carter no recentíssimo Sweeney Todd de Burton): a curta dentro do filme, El Amante Minguante. Penso que esse foi o momento em que, de uma vez por todas, o filme, de facto, se me impôs e me obrigou a respeitá-lo, inclinando a cabeça em sinal de reconhecimento da sua arte. Deixo-vos abaixo essa sequência que podem ver sem grande prejuízo: não se trata de um spoiler, mesmo se decorre já a meio do filme. Perversamente erótico, há algo de absolutamente delicioso nestes poucos minutos loucos. Apreciai:



imagem: Almodóvar e Rosario Flores (Lydia),
na rodagem de Habla Con Ella

sábado, 16 de fevereiro de 2008

18/02: "A Comunidade", de Álex de la Iglesia (2000) - Apresentação

ESTE ERA, dos três cineastas que escolhemos, o único que me era desconhecido. O César foi o primeiro a propôr o filme, depois das suas investigações, e eu, depois das minhas, confirmei a vontade de o pormos na lista dos eleitos para exibição. Devo confessar, a poucos dias de o passarmos, que estou deveras curioso: custa-me que, já como o Tese, seja pouco provável que esteja no entanto lá quando for exibido. Uma coisa é certa: nenhum ciclo, até agora, me tinha desperto tanta curiosidade como o espanhol - quem adivinharia tal coisa?

A HISTÓRIA:
Num velho edifício no centro de Madrid, Julia, uma agente imobiliária, encontra 300 milhões de pesetas debaixo de uma laje em casa de um vizinho falecido. Os vizinhos, porém, sabendo da existência de tal soma, irritados por ter sido ela a primeira a pôr-lhe as mãos em cima, tudo farão para recuperarem o montante. Julia vai ter de lidar com a ira deles e o jogo da apanhada começa.

O FILME:
O filme teve um sucesso moderado no mercado doméstico. A crítica recebeu-o bem e arrecadou ainda alguns troféus, especialmente pelas interpretações dos seus actores, nomeadamente Carmen Maura, a protagonista, que recebeu o Goya de Melhor Actriz, e Emilio Gutiérrez Caba, que recebeu o de Melhor Actor Secundário. Apesar de só ter vencido estes (e o de Melhores Efeitos Especiais), foi nomeado para praticamente todas as restantes categorias. De la Iglesia arrecadou também a sua quota de prémios como realizador da metragem, especialmente no Festival de Cognac de Filme Policial. Outros galardões noutros festivais distinguiram quer a cinematografia quer a banda-sonora da fita.

O REALIZADOR:
Álex de la Iglesia nasceu em Bilbao em 1965. Tendo cursado Filosofia na Universidade de Deusto, cedo começou a trabalhar no domínio da banda desenhada. Com Jose Guerricaechevarria, com quem, desde o começo da amizade dos dois, escreve todos os argumentos dos seus filmes, redigiu o guião da sua primeira curta, Mirindas Asesinas (1991), cujo enredo prenuncia já a sua futura filmografia. Lança-se na aventura da realização de longas-metragens com Acción Mutante (1993). Segue-se El Dia de la Bestia (1995), Perdita Durango (1997) e Muertos de Risa (1999). Todos estes filmes são fiéis ao estilo que o próprio escolheu para si, repletos de uma extravagância despejada em doses se humor negro, tendo como base o género policial e o do terror. É em 2000 que realiza La Comunidad. O seu último filme, The Oxford Murders, estreado este ano, conta com actores como Elijah Wood e John Hurt nos principais papeis e é um salto para a produção de filmes em língua inglesa. O seu próximo projecto tem o enigmático, mas altamente promissor e cómico título Think About Disney. Encontra-se em produção.

O TRAILER:

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Sugestões Ciclo Cinema Italiano

ITÁLIA VIRÁ. Ao longo do mês de Março, exploraremos essa cinematografia tão rica que é a italiana, incansável cartola de surpresas: ainda ontem vi o dilacerante Mamma Roma (1962), de Pasolini, o génio. Como já fizémos aquando do ciclo espanhol, oferecemos aqui a oportunidade de os leitores sugerirem filmes para o ciclo a-vir. É certo que, neste caso, todos nós na régie palpitamos de ideias, mas, mais uma vez, obras há certamente que nós nem nunca sonhámos e pode ser tristeza perdê-las. Por isso, (repetindo as palavras), sugiram o que bem vos aprouver, conquanto:

1) o filme seja falado em italiano;
2) o filme seja de um realizador italiano;
3) o filme seja uma produção ou co-produção de Itália.

Se simplesmente não tiverem o tempo, a vontade e a disponibilidade de irem ao IMDB verificar se o filme que têm já em mente para sugerir preenche estes requisitos todos, não se preocupem: escrevam, que nós depois logo o consideraremos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

11/02: "Tese", de Alejandro Amenábar (1996) - Apresentação

"NUESTROS HERMANOS" nos visitam este mês, como já fora anunciado. Tal como sucedera com o ciclo brasileiro, foi com certo espanto que constatei a dificuldade de obter em terras lusas algumas obras do cinema espanhol, mesmo se a missão, desta vez, se revelou mais fácil. Os filmes deixados de lado logo os recomendaremos aqui aquando do encerramento oficial do ciclo. De Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos: mas bons filmes, certamente. No casting de fitas, não podia faltar uma embaixada de Amenábar, cineasta de carreira feliz. Resolvemos regressar aos seus começos, como quem escreve uma história ab ovo (mesmo se Horácio o desaconselha). Eis pois uma curto BI do bicho.

A HISTÓRIA:
Tese é uma história sobre a violência televisiva, a pornografia e o cinema «snuff» ou a máxima manifestação do terror em imagens. A progressiva desmistificação dos velhos tabus sociais como o sexo, a morte ou a dor, difundidos massivamente através dos meios de comunicação, torna complicado fazer um filme que pretende precisamente chamar a atenção para este facto, visto que tudo, ou quase tudo, já foi visto pelo espectador. Por isso optou-se por não mostrar essas cenas. O espectador vê os personagens consumindo imagens de um modo quase patológico, mas nunca vê essas imagens. A força do filme radica nos diálogos e na música. Castiga-se assim o público, que antes de mais nada quer: ver.
O filme ensaia, evitando um tom didáctico, uma reflexão sobre o futuro do mercado audiovisual: a pressão mundial exercida pelo cinema norte-americano, exemplo máximo do cinema industrial, submetido aos interesses económicos; a difusão crescente do cinema «snuff» (em que as pessoas são assassinadas realmente em frente à câmera) através de circuitos de vídeo; a legitimação da violência nas notícias na TV; o domínio absoluto da imagem em deterimento da literatura; a individualização do espectador através da televisão e do vídeo; a sua insensibilização perante a imagem cruel e a sua perda de contacto com o o mundo real.
Acreditamos que Tese é um filme interessante e necessário, por ser um dos primeiros que trata directamente o tema do «snuff» e porque o seu estilo, triste e por vezes trepidante, é uma proposta pouco frequente no cinema espanhol.
(adaptado deste site)

O FILME:
Tese ou Tesis, no original, data de 1993 e é a primeira longa de Amenábar e conheceu, desde logo, um sucesso retumbante. Considere-se que foi nomeado para oito Goyas, os prémios máximos do cinema espanhol, e venceu em sete categorias, entre elas Melhor Argumento, Melhor Montagem, Melhor Novo Realizador e Melhor Filme. Foi nomeado para o prémio máximo do nosso Fantas e ganhou mesmo o troféu maior noutro festival de cinema fantástico e de terror, o Festival Internacional de Filme Fantástico de Bruxelas. A actriz principal foi também distinguida noutras homenagens. Sendo uma estreia, com a mão-cheia de prémios que facilmente arrebatou, só se podia ler aqui o prenúncio de um grande nome.

O REALIZADOR:
Alejandro Amenábar nasceu em 1972, no Chile, mas foi para Espanha apenas com um ano de idade. Frequentemente realizador e argumentista, simultaneamente, ele é também compositor, tendo a sua banda-sonora para La Lengua de las Mariposas, de José Luis Cuerda (1999) recebido inclusive uma nomeação para os Goya. Depois de duas curtas (Himenóptero (1992) e Luna (1995)), Amenábar realizou Tese, consolidando-se como um profissional do thriller. Em 1997 filma Abre Los Ojos, com Penélope, película que inspiraria mais tarde o bem sucedido Vanilla Sky, também com a mesma Penélope. Em 2001, The Others, com Nicole Kidman, a sua estreia na direcção de filmes de língua inglesa, corre extremamente bem, sendo o filme galardoado com uma série de distinções, inclusive o Goya de Melhor Filme, o segundo do realizador, que, porém, repetiria o feito ao vencer em 2004 com Mar Adentro, com Javier Bardem, filme que gozou de grande projecção internacional e virtude do seu tema: a eutanásia. A fita venceu mesmo o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, entre muitos outros prémios. De momento, não se sabe ainda qual será o próximo projecto do realizador, mas não se torna difícil adivinhar que, se não desonrar os seus predecessores, será também uma grande peça de cinema.

TRAILER:

domingo, 27 de janeiro de 2008

28/01: "Carandiru", de Héctor Babenco (2003) - Apresentação

CONCLUI-SE AMANHÃ o Ciclo de Cinema Brasileiro com a exibição de Carandiru, no sítio de sempre, pela hora do costume. O filme, de Héctor Babenco, de 2003, obriga-nos de novo a contemplar a realidade social do Brasil, relembrando a falta de condições das prisões brasileiras. Não deixa de ser curioso registar que os filmes brasileiros que mais reputação têm conquistado nesta década sejam precisamente os que se debruçam sobre as grandes problemáticas sociais do Brasil. É o caso de Cidade de Deus (já exibido), de Fernando Meirelles (2002), Carandiru e, mais recentemente, Tropa de Elite, de José Padilha (2007). Falemos agora, porém, da fita de amanhã.

A HISTÓRIA:
Baseado numa história verídica, Carandiru é a adaptação do livro Estação Carandiru de Drauzio Varella. Pelos olhos de um médico que trabalhou doze anos na infame casa de detenção de São Paulo, vamos assistindo a uma série de estórias de crime, vingança, amor e amizade. O filme funciona como um puzzle: as várias narrativas entrecruzam-se para traçar um retrato realista da tragédia de um país, o Brasil. Os espectadores seguem o dia-a-dia dos prisioneiros até ao terrível dia 2 de Outubro de 1992, um dia que abalou toda a prisão (e todo o Brasil): o dia do massacre de Carandiru.

O FILME:
Carandiru conheceu um considerável sucesso, tendo sido nomeado para a Palma de Ouro no ano do seu lançamento. Passou ainda pelo Festival de Toronto e por Sundance, talvez os dois nomes mais pomposos no seu currículo depois de Cannes. Foi nomeado para quase todas as categorias do Grande Prémio Cinema Brasil, tendo conquistado os trofeús de melhor realizador e melhor argumento adaptado. No IMDB goza de uma simpática classificação de 7.6/10 e o RottenTomatoes dá-lhe 68%.

O REALIZADOR:
Héctor Eduardo Eduardo Babenco nasceu na Argentina em 1946. Aos dezanove anos de idade radicou-se no Brasil, tendo obtido a cidadania brasileira em 1977. Estreou-se nas lides do cinema com O Rei da Noite (1975), mas só atingiu fama internacional com Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981). O filme foi francamente bem recebido, revelando de forma dramática a realidade trágica do submundo do crime juvenil no Brasil. O sucesso da fita permitiu-lhe a internacionalização, seguindo-se um conjunto de filmes em inglês. O mais conhecido será certamente O Beijo da Mulher Aranha (1985), mas destaque-se também Ironweed (1987), que conta com a participação de Tom Waits e um dos posters mais brilhantes que conhecemos (evocando Magritte). Depois de Carandiru, realizou El Pasado (2007), com a participação do bem conhecido e bom actor Gael García Bernal.

TRAILER:

domingo, 13 de janeiro de 2008

Sugestões Ciclo Cinema Espanhol

SEGUE-SE ESPANHA. Será só em Fevereiro, mas antecipadamente se devem planear as coisas. Pareceu-nos que seria interessante se os leitores cinéfilos colaborassem também na escolha dos filmes para o próximo ciclo. Sugestões são sempre bem-vindas e porque os seis olhos destes três organizadores não podem ver tudo, certamente coisas boas nos escapam. Para que não as percamos, pedimos a vossa ajuda. Nos comentários a este post, sugiram o que bem vos aprouver, conquanto:

1) o filme seja falado em espanhol;
2) o filme seja de um realizador espanhol;
3) o filme seja uma produção ou co-produção de Espanha.

Se simplesmente não tiverem o tempo, a vontade e a disponibilidade de irem ao IMDB verificar se o filme que têm já em mente para sugerir preenche estes requisitos todos, não se preocupem: escrevam, que nós depois logo o consideraremos. A ver se isto traz mais movimento a um blogue que coitado sobrevive - certamente culpa nossa também, e do dia, por não ter vinte e cinco horas.

14/01: "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles (2002) - Apresentação

COMEÇAMOS AMANHÃ o nosso terceiro ciclo, sob a bandeira do Brasil. Coisa estranha esta, de o cinema brasileiro, no fundo, ser tão pouco conhecido entre nós, mas que se explica por não sermos todos Agualusa, esse bom e grande escritor que, mesmo se nascido em Angola, pertence a cada homem que fale português. A triste ausência de um sentido verdadeiro de lusofonia faz com que a produção brasileira acabe por ser para nós um campo desconhecido. Onde poderia existir um mercado comum, existe um oceano que parece que ainda não conheceu Cabral. Não foi sem esforço que se arranjaram os filmes que pretendemos exibir neste ciclo: algumas propostas iniciais foram abandonadas por os filmes pensados não serem comercializados em Portugal - e não havia tempo de os mandar vir de Vera Cruz. Este é pois o ciclo possível - mas um ciclo bom, acreditamos.

Novo ano, hábitos novos: pretendemos remodelar, de alguma forma, a tradicional apresentação do filme que aqui fazemos. É um objectivo nosso para este ano conseguir, sempre que possível, fazer acompanhar a exibição do filme de um pequeno flyer com informação sobre o mesmo. Tentaremos doravante antecipar o seu formato aqui no blogue, ainda que, naturalmente, enriqueçamos esta apresentação tendo em conta o meio em que nos movemos: essa pangeia nova que é a divina internet. O facto de, no meu caso, não ter visto ainda, por vezes, os filmes exibidos, obrigar-me-á, porventura, a abdicar de uma certa subjectividade com que antes engalanava os textos passionais que redigia. Doravante, portanto, será possível que, como já neste caso, se recorra, para a apresentação do filme, a informação do site oficial, como fonte sem dúvida mais fiável do que as mãos que escrevem daquele cujos olhos não viram o filme.

A HISTÓRIA:
O principal personagem do filme Cidade de Deus não é uma pessoa. O verdadeiro protagonista é o lugar. Cidade de Deus é uma favela que surgiu nos anos 60, e se tornou um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro, no começo dos anos 80. Para contar a estória deste lugar, o filme narra a vida de diversos personagens, todos vistos sob o ponto de vista do narrador, Buscapé. Este, um menino pobre, negro, muito sensível e bastante amedrontado com a ideia de se tornar um bandido; mas também, inteligente suficientemente para se resignar com trabalhos quase escravos.
Buscapé cresceu num ambiente bastante violento. Apesar de sentir que todas as chances estavam contra ele, descobre que pode ver a vida com outros olhos: os de um artista. Acidentalmente, torna-se fotógrafo profissional, o que foi sua libertação. Buscapé não é o verdadeiro protagonista do filme: não é o único que faz a estória acontecer; não é o único que determina os fatos principais. No entanto, não somente sua vida está ligada com os acontecimentos da estória, mas também, é através da sua perspectiva que entendemos a humanidade existente, em um mundo aparentemente condenado por uma violência infinita.
(retirado do site oficial do filme)

O FILME:
Cidade de Deus será certamente o filme mais popular saído do Brasil nesta nova década. O filme inaugurou-se auspiciosamente no Festival de Cannes, em 2002. Vencedor de vários prémios, cuja lista exaustiva consumiria algumas linhas, foi ainda nomeado para quatro óscares, entre eles Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Argumento Adaptado. A crítica foi unânime no elogio do filme e o público concordou, afluindo às salas. Actualmente, no IMDB, encontra-se na invejável décima sexta posição na lista dos melhores filmes de sempre. O filme acabaria por dar origem ainda a uma mini-série de televisão, um spin-off de quatro temporadas: Cidade dos Homens, também do mesmo realizador.

O REALIZADOR:
Fernando Meirelles, oriundo de São Paulo, Brasil, nasceu em 1955. Tendo cursado Arquitectura, trabalhou inicialmente para a televisão, como realizador de anúncios publicitários. Estreou-se na realização com E no meio passa um trem (1998), uma curta-metragem. A sua primeira longa data do mesmo ano: Menino Maluquinho 2. Em 2000 realizou a curta Palace II, que partia de um excerto do livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, livro que o realizador converteria numa longa-metragem em 2002, com o filme homónimo. Cidade de Deus catapultou Meirelles para o sucesso, lançando-o junto da indústria americana. Realizou então The Constant Gardener/O Fiel Jardeneiro (2005), já com actores de Hollywood. O filme, mais uma vez, valeu a Meirelles alguns prémios, com Rachel Weisz a receber pelo seu desempenho o óscar de Melhor Actriz Secundária. Actualmente, o realizador encontra-se a trabalhar na pós-produção de Blindness, nada mais nada menos que a adaptação cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago. O filme deverá estrear este ano e conta com as participações de actores tão conhecidos como Julianne Moore, Mark Ruffalo e Gael García Bernal.

TRAILER: