domingo, 30 de março de 2008

31/03: "8½", de Federico Fellini (1963) - Apresentação

ALORA: FELLINI! Sou o primeiro a confessar que de Fellini conheço pouco ou nada (vi, e não completo, o Amarcord (1973), do qual guardo, amando, a cena do voglio una donna!), mas penso também ser essa a benção destes ciclos: irmos corrigindo as nossas falhas cinéfilas. Não negarei que estou particularmente curioso para ver este filme: aliás, amanhã exibilo-ei, mas, a bem dizer, não precisava, porquanto o César já confirmou a sua presença também, pelo que sem problemas podia ser ele o projeccionista. Eis, porém, que faço questão de, podendo, não perder esta que é tida como uma, se não mesmo a, obra-prima do realizador italiano. Apaixonei-me pelo filme graças ao pequeno clip que, no final desta apresentação, serve de trailer, que obviamente não há.

A HISTÓRIA:
O filme gira em torno de um realizador italiano, Guido Anselmi (simplesmente, o duplo no ecrã de Fellini, que deu um forte cunho autobiográfico a esta sua obra) que está a sofrer de bloqueio criativo. Supostamente estaria a realizar o seu nono filme, uma película de ficção científica, de argumento ainda baço (daí o título do filme: 8½, exactamente o número de filmes que Guido realizou, já a contar com o presente, incompleto). Guido, porém, perdeu o interesse no projecto, envolto em dificuldades criativas e pessoais. O filme constrói-se num emaranhado de flashbacks e sonhos, memórias e fantasias, que se misturam todos com a realidade, nem sempre sendo fácil destrinçá-los.

O FILME:
é considerado por muitos o melhor filme do realizador, e aparece regularmente na lista dos melhores filmes de sempre. Ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro no seu ano. No IMDB, está consistentemente na lista dos 250 melhores (actualmente, na posição #155). Levou também o galardão máximo da National Board of Review, dos EUA, e do New York Film Critics Circle. O seu mérito, porém, foi ainda reconhecido em Moscovo, onde recebeu o Grande Prémio do Festival Internacional de Cinema da cidade. Em Itália, a película foi cumulada de prémios. E não bastaria apenas dizer que é Fellini, para que não fosse preciso dizer mais nada? Recordar ainda que conta com a participação de Mastroianni e da belíssima Claudia Cardinale.

O REALIZADOR:
"Se um autor é tanto mais autor quanto o seu nome se transforma em adjectivo, Fellini é, sem dúvida, um dos maiores autores da História do Cinema. A vida dita real, essa grande imitadora da arte e da vida dos filmes, ficou desde a segunda metade do século XX, definitivamente felliniana. E se a obra de Fellini, o corpo do seu trabalho, é o conjunto dos seus filmes - cada um deles único, inconfundível e irrepetível, o espírito, estilo e personalidade dessa obra não só está presente em cada um desses filmes como naquilo que os liga e origina, o centro do universo felliniano: a grande personagem Federico Fellini. É essa a Obra Total de Fellini: a personagem do realizador e a sua autobiografia onírica. [...] São filmes ao mesmo tempo, realistas e oníricos. Obras totais que convocam o circo, a poesia, a música, a pintura e a banda desenhada, e, por fim, a própria ópera, numa coreografia puramente cinematográfica onde tudo se mistura e move por devaneio e excesso. São filmes trágicos e desesperados na forma de comédias de episódios pícaros, como as vidas reais. De filme para filme passam as mesmas obsessões - do sexo e da beleza, que podem, fugazmente, redimir a dor e a decadência. E passam as personagens excessivas, marginais, grotescas e tristes na sua desmedida euforia feérica, na sua feia beleza, na sua harmonia disforme."
Nuno Artur Silva (roubado do prefácio do volume de Fellini
da colecção Grandes Realizadores do Público e dos Cahiers)


O TRAILER (A FAZER DE CONTA):

Contrição ou "Cinema Paraíso" Nunca Existiu

A ENTRADA é curta, o erro é grande. Por falhas de comunicação entre a trindade organizadora, não foi possível exibir o Cinema Paraíso, como tinha sido publicitado, não só aqui no blogue, como, principalmente, por mail e pelos cartazes afixadas nas várias faculdades. Este ciclo italiano, como se vê, tem estado cheio de peripécias infelizes, milagre mau ainda mais estranho de compreender quando foi dos ciclos preparado com maior antecedência. Definitivamente, Deus escreve torto pelas linhas direitas.

imagem: fotograma de Expiação (2007), de Joe Wright,
filme de título apropriado para a situação.

terça-feira, 11 de março de 2008

17/03: "Cinema Paraíso", de Giuseppe Tornatore (1988) - Apresentação

CLÁSSICO CONSUMADO, Cinema Paraíso (1988) é o próximo filme a exibir no nosso ciclo italiano. Necessariamente, tinha de constar do nosso cartaz. Os que o viram, querem-no repetir; os que ainda o desconhecem (como o presente escriba), pretendem suprir essa falha. Tal é a fama da fita que se dispensava a apresentação, mas aqui se segue um rascunho de um possível b.i. do filme.

A HISTÓRIA:
Contado em flashbacks, o filme parte do regresso de Salvatore, realizador de sucesso, à sua aldeia natal, na Sicília, para o funeral do seu velho amigo Alfredo, projeccionista no cinema local, o Cinema Paraíso, que empresta o nome ao filme. Este mistura sentimentalismo e comédia, nostalgia e pragmatismo, explorando as questões da juventude, do crescimento e a forma como, já adultos, pensamos o passado (que é o filme, na sua estrutura de analepses, senão isso?). Cinema Paraíso é também e muito uma homenagem ao cinema: é como projeccionista, em miúdo, que o pequeno Totò (abreviatura de Salvatore) desenvolve a sua paixão pelos filmes, que acaba por moldar toda a sua vida adulta.
(a partir daqui)

O FILME:
Cinema Paraíso foi universalmente aclamado, pela crítica e pelo público. O lado mais visível desse reconhecimento terá sido, por um lado, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Grande Prémio do Júri, em Cannes. Poderíamos no entanto referir as vitórias nos BAFTA (melhor filme estrangeiro, melhor argumento original, melhor banda-sonora, melhor actor - entre outros) ou os Globos de Ouro (melhor filme estrangeiro). E esta é ainda e tão só uma amostra dos variados galardões com que o filme foi cumulado. Ainda hoje encontra-se em #94 no top 250 do IMDB. Em 2002 foi lançada a versão de realizador, com 173 minutos.

O REALIZADOR:
Nascido em 1956, perto de Palermo, Giuseppe Tornatore desde a juventude que manifestou o seu interesse pela representação e o teatro. Daí fez o salto para o cinema, tendo-se estreado com um documentário sobre as minorias étnicas na Sicília. Trabalhou então para a RAI antes de em 1986 lançar o seu primeiro filme, Il Camorrista. Conquistou fama internacional com Cinema Paraíso. Desde então tem lançado vários outros filmes que têm ajudado a cimentar a sua posição no seio da indústria cinematográfica italiana, dos quais destacamos La Leggenda del Pianista sull'Oceano (1998) (uma amiga minha já há uns anos mo recomendara vivamente) e Malèna (2000), que apresentou a Monica Belluci às audiências americanas (preparando-a para uma carreira fulgurante). O seu último trabalho, galardoado com o David de Melhor Filme, foi La Sconosciuta (2006). Encontra-se presentemente a rodar Baaria - La Porta Del Vento.

TRAILER:

Peripécias de Uma Exibição: De "Senso" a "Mamma Roma"

ORGANIZAR CICLOS não é tarefa fácil. Das dificuldades da missão já muitas vezes demos aqui conta. O presente ciclo italiano foi até preparado com alguma antecedência, o que, contudo, não evitou que, ontem, o Senso (1954), de Visconti, prometido nos cartazes afixados, tivesse de ser substituído pelo Mamma Roma (1962) do Pasolini. É a história desta revolução que me dedico agora a partilha convosco.

Tendo-nos sido inicialmente pedido que exibíssemos O Grande Silêncio (2005), de Philip Gröning, para a actividade 24 Horas no Mosteiro, a ideia, foi, contudo, abortada posteriormente, e o filme foi exibido independentemente, no Mosteiro de Celas. Ficámos, portanto, à última da hora, com um buraco na nossa programação, que aceleradamente fomos forçados a tapar. Ocorreu-nos então exibir, como até tinha sido nosso desejo anterior, um Visconti, e daí a sugestão de Senso, que nenhum de nós, de resto, tinha visto. Procurámos verificar na FNAC se o DVD existia: o site, porém, estava em baixo nesse dia, e não pudémos confirmar a existência de uma edição portuguesa do filme, que, alas!, descobrimos depois não existir.
Fomos então ao nosso videoclube de serviço, mas, para total surpresa nossa, foi-nos revelado que nenhum Visconti existia para aluguer. Recorremos então às nossas dvdtecas pessoais: tinha na sexta anterior comprado, na colecção do Público & Cahiers du Cinéma, O Bom, O Mau e o Vilão (1966), de Sergio Leone. Apesar das suas três horas, dispûs-me a exibi-lo. Foi quando, desiludido, me apercebi de que a versão que adquirira era a inglesa: não a podia mostrar no ciclo. Fui ver que mais tinha: recebera nos anos Mamma Roma (1962), do Pasolini, meu bem-amado realizador, talvez por tanto me rever nele, o escritor-poeta que, ignorante de toda a técnica, agarra a câmara - e filma. Falei com o resto do triunvirato da organização, e assentámos na ideia.
E assim, às 21:15, para cinco almas, fecharam-se as luzes da sala, premi o play - e fiat cinema.


imagens: um dos cartazes originais de Senso
& a bela e sóbria capa do dvd de Mamma Roma da Criterion

domingo, 2 de março de 2008

03/03: "Querido Diário", de Nanni Moretti (1993) - Apresentação

SIAMO ARRIVATI. Itália tem uma das filmografias mais ricas do mundo. Escolher quatro filmes, portanto, como podem imaginar, foi um exercício complicado. O resultado, contudo, creio ter sido interessante, e diferente do habitual, certamente. Em vez de uma simples mostra da produção mais recente, fazemos uma pequena viagem pelo cinema italiano, atravessando várias décadas (de facto, este é o primeiro ciclo em que recuámos fortemente no tempo, algo que a exibição de Tese iniciara já). Passamos por grandes realizadores, dos quais a seu tempo falaremos: Visconti, Fellini, Tornatore e Moretti. É precisamente por este que começamos, já amanhã, no sítio habitual.

A HISTÓRIA:
"O filme conta-se em três capítulos: no primeiro, Moretti deambula pelas ruas de Roma, descobrindo fachadas, indo ao cinema, visitando o lugar onde Pasolini foi assassinado; no segundo, um cenário de ilhas paradisíacas transfigura-se em espaço de "infernal" humor, com todas as relações sociais em crise delirante; no último, Moretti fala da sua experiência com a doença. Ponto comum a todos os capítulos? Um cineasta que filma na primeira pessoa, não para afirmar a verdade da sua visão, antes sublinhando a singularidade do seu "eu", desse lugar a partir do qual adquire os contornos de uma solidão irredutível."
João Lopes, Expresso (retirado daqui)

O FILME:
Quando Moretti faz Querido Diário (1993) tem já um lugar destacado no cinema italiano: veja-se todo o seu catálogo de filmes anteriores. Querido Diário foi reconhecido como mais uma confirmação da promessa que Moretti já deixara de constituir, por se ter, entretanto, afirmado como certeza. O filme foi nomeado para a Palma de Ouro e Moretti ganhou mesmo o prémio de melhor realizador em Cannes. O filme venceu também o David di Donatello (o equivalente italiano dos Césares franceses, ou dos BAFTA britânicos, ou dos Goya espanhóis, ou dos Óscares americanos) não só de melhor filme como também de melhor música, tendo sido nomeado noutras categorias, como melhor argumento e melhor realização. O filme teve uma continuação, Aprile (1998).

O REALIZADOR:
Giovanni Moretti nasceu em 1953 e é bem possivelmente, ao lado de Benigni, o realizador mais conhecido dos novos cineastas italianos. Chamado por muitos de Woody Allen italiano, deve o epíteto justo ao facto de os filhos serem frequentemente atravessados por um tom cómico e ser actor na maioria deles (Moretti, aliás, tem uma carreira como actor bem consolidada: a sua última estreia foi Caos Calmo, de Antonio Grimaldi. Quando estive em Itália agora no Carnaval via os cartazes por todo o lado). Em 2001 consagrou-se ao ganhar a Palma de Ouro com O Quarto do Filho. Recentemente, estreou O Caimão, uma crítica feroz ao governo Berlusconi (que, para mal dos nossos pecados, eis que volta a ter reais possibilidades de voltar a governar). De resto, as posições políticas de Moretti sempre foram bem conhecidas. É co-proprietário de uma pequena sala de cinema em Roma, onde habita.

25/02: "Fala Com Ela", de Pedro Almodóvar (2002) - Review

TINHA VERGONHA (como num daqueles pesadelos em que estamos nus diante da turma) de confessar, embaraçado, que não conhecia nada de Almodóvar. Ela, no jardim, corrigiu-me o erro, redimindo com o gesto aqueloutra que, diz o mito, noutro botânico nos levou ao primeiro engano (a história sente sempre a necessidade de se corrigir, como uma comichão qualquer). Ofereceu-me o dvd, embrulhado em desculpas despropositadas pelo atraso da prenda. Prometi-lhe que o via ainda naquele mesmo fim-de-semana: mas eu sou um mentiroso, e nunca se deve confiar em mim. Lembrei-me do ciclo espanhol, propus passar o filme e, quando chegou a segunda, sentei-me defronte do ecrã, a cumprir (também eu atrasado - como disse, a história gosta muito de se reequilibrar e fazer as coisas quites) a minha promessa.

Fala Com Ela
foi um bom primeiro Almodóvar. Não negarei que, mais que tudo, foi muito a estória que sedentarizou o meu agrado pelo filme (ganhou um óscar por isso, de resto). Demorou tempo a conquistar-me, mas quando o fez, fê-lo com convicção. Drama de gente muito humana, cantiga de amor nada simples, gordinha de ambiguidades, a coisa equilibra-se numa tragédia intimista onde morte e vida coabitam, onde a própria morte e vida são ambíguas (o que é o estado de coma, senão uma mistura mal feita e triste das duas?). As duas dançam entre si (e o filme começa e acaba com um espectáculo de dança). Morte cede lugar à vida, vida à morte - e a tecer tudo isto o amor, essa coisa complexa e maluca, desproporcionada, terrível também. No meio de tudo isto, resta espaço à amizade, como contraponto à solidão: a relação entre os dois protagonistas é, de facto, uma das coisas mais gratificantes de ver na fita, de tão honesta e improvável. O fala com ela é muito um fala com ele.
É um filme que, imagino, deverei rever, algures no futuro. Vai-se aninhando pouco a pouco no espírito, como um canguru na bolsa da mãe: em breve, há-de ser capaz de dar grandes saltos. Mau grado o que comecei por dizer, Almodóvar não é só um argumentista inspirado, é também um bom realizador e alguns planos ainda os tenho na memória (como quando Lydia espera o touro que a colherá). Um momento, contudo, é único, uma dádiva de génio (um pouco como a fantasia de Bonham-Carter no recentíssimo Sweeney Todd de Burton): a curta dentro do filme, El Amante Minguante. Penso que esse foi o momento em que, de uma vez por todas, o filme, de facto, se me impôs e me obrigou a respeitá-lo, inclinando a cabeça em sinal de reconhecimento da sua arte. Deixo-vos abaixo essa sequência que podem ver sem grande prejuízo: não se trata de um spoiler, mesmo se decorre já a meio do filme. Perversamente erótico, há algo de absolutamente delicioso nestes poucos minutos loucos. Apreciai:



imagem: Almodóvar e Rosario Flores (Lydia),
na rodagem de Habla Con Ella