domingo, 30 de novembro de 2008

2/12: "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola (1979) - Apresentação


A HISTÓRIA:
O filme segue a missão top secret do coronel Benjamin L. Willard (Martin Sheen), encarregue de assassinar Kurt (Brando), um coronel americano no Vietname que se refugiou no coração da selva cambodjiana, depois de endoidecer (assim contam os relatórios do exército), sendo adorado como um deus pelos nativos, que formam o seu exército particular. Willard começa na foz do imaginário rio Nung e, à medida que o filme progride, ele, juntamente com a sua reduzida equipa (todos ignorantes da verdadeira missão de Willard), vão mergulhando nas trevas, enfiando-se mais e mais terra adentro, rio adiante, numa descida ao abismo da loucura do homem e da guerra.

O FILME:
Hesito no que escreva: como fazer justiça ao que é, indubitavelmente, um dos maiores filmes do cinema? Se não está entre os meus favoritos, no pequeno top7 na barra lateral do blogue, é porque me impûs o critério mentiroso de não repetir, nessa lista concisa, um único realizador, e Coppola já aparece aí representado pel' O Padrinho (1972). Não fora isso, e Apocalypse Now estaria sem dúvida naquele restrito panteão pessoal. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, a estória da produção do filme é tão mítica como o próprio, tendo dado a um famoso documentário sobre o assunto. Apocalypse Now é um livro que não cansa ler, onde se acha, a cada releitura, novos significados, novas camadas. Melhor filme de guerra de sempre que é simultaneamente melhor crítica à guerra, é uma viagem alucinante à loucura, ao homem animal, às trevas (um dos livros fundamentais para o argumento foi O Coração das Trevas, de Conrad). Não se pode subestimar um filme destes, que tem aquela que, para mim, continua a ser a melhor cena de cinema de todo o sempre, exemplo perfeito do que eu chamo "montagem intelectual sonora" (perdoem o calão cinematográfico): a cavalgada das valquírias. Clássico consumado, Brando, a meu ver, chega a superar-se aqui, com o seu Kurtz a ultrapassar o seu Corleone (mas sei que a afirmação é altamente discutível). Coppola revela aqui toda a sua mestria enquanto escritor e realizador. Tão perfeito, meu Deus, tão perfeito. Condições ideias para ver o filme: noite de verão a ferver, depois da meia-noite, com princípios de febre.

O REALIZADOR:
Coppola é universalmente reconhecido como um dos maiores realizadores de todo o sempre. A sua carreira não é linear, mas o seu espírito é o mesmo, um espírito bom e simples, um visionário lutador, um homem criança com um olhar maduro (uma juventude sem juventude, para usar o título do seu último). Coppola faz parte daquela geração milagre do cinema americano nos anos 70, dos movie brats, em que os estúdios se abriram a novas tendências, a jovens realizadores americanos influenciados pelo cinema europeu em ebulição (Spielberg, Lucas, Scorsese, Kubrick, just to name a few). Coppola foi primeiro reconhecido como argumentista, tendo ganho o Óscar nessa categoria por ter escrito Patton (1970). E depois aconteceu o milagre: O Padrinho (1972). Como tanta confiança e liberdade foram postas num indivíduo quase desconhecido só pode, de facto, merecer o nome de milagre (e basta ver os extras do filme para se perceber que a coisa não foi fácil). Depois veio o Padrinho II (1974), mas pelo meio ganhou a Palma de Ouro com The Conversation (1974). Coppola rapidamente ganhou interesse pela produção, fundando a Zoetrope, que lançou Lucas, com o seu THX 1138 (essa obra-prima esquecida, em nada semelhante ao que Lucas faria depois). Coppola triunfaria de novo com Apocalypse Now, arrecadando a Palma de Ouro. Em 1982, porém, Coppola cavou a sua cova, lançando One From The Heart, um musical em que se investiu completamente. O filme foi um fracasso total e obrigou Coppola a realizar vários filmes durante as duas décadas seguintes para pagar as suas dívidas (são destas décadas que datam a maioria dos seus filmes ditos menores, ou mesmo fracos). Os anos 90, no entanto, veriam um certo ressurgir da sua popularidade, com o Padrinho III (1990) e Drácula (1992). Estes filmes salvaram-no da bancarrota. Muito recentemente realizou Segunda Juventude (2007), um filme íntimo, independente e pessoal. Encontra-se de momento a trabalhar em Tetro, com estreia prevista para 2009 e que se imagina um regresso às grandes sagas de família, com Buenos Aires como pano de fundo.

O TRAILER:

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

25/11: "O Meu Pai Partiu Em Viagem De Negócios", de Emir Kusturica (1985) - Apresentação


O FILME:
O título do filme é na realidade um eufemismo: por causa da conturbada relação entre a Jugoslávia e a URSS (que se consolidaria numa cisão oficial entre os dois países), nesse período perigoso, vários cidadãos "desapareciam" a meio da noite (levados pela polícia política, claro). Um deles é Miki Manojlovic, o pai de Moreno D'E Bartolli, de seis anos. A estória é contada do ponto de vista do miúdo. Quando Manojlovic, funcionário do ministério do trabalho, "desaparece", a sua família reage com orgulho, assegurando o rapaz e toda a gente que ele está simplesmente "em viagem de negócios". Na realidade, este encontra-se preso pelas suas aventuras sexuais. O filme acompanha as tribulações da família e os esforços para sobreviver na miséria comunista.
(traduzido e adaptado daqui)

O FILME:
O filme, a segunda metragem de Kusturica, permitiu-lhe arrecadar a Palma de Ouro em Cannes (a sua primeira). O sucesso do filme foi tal que foi inclusive nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e para o Globo de Ouro na mesma categoria.

O REALIZADOR:
[ver post anterior]

O TRAILER (em sérvio, sem legendas: é o melhor que se arranja!):

domingo, 16 de novembro de 2008

18/11: "Underground - Era Uma Vez Um País", de Emir Kusturica (1995) - Apresentação

A HISTÓRIA:
Não é ao acaso que o filme é subintitulado Era Uma Vez Um País. Underground é, acima de tudo, um relato tragicómico, em forma de sinédoque, do destino da Jugoslávia a partir da II Guerra Mundial até ao presente (em que o presente é, aqui, 1995, obviamente). É como que um épico nacional, uns lusíadas filmados. A acção centra-se em dois amigos em que um engana o outro, não lhe revelando que a II GM acaba, antes insistindo nessa ficção (à la Goodbye, Lenin!). O enganado vive debaixo de terra, num refúgio anti-aéreo onde, juntamente com toda mais uma tribo, se dedica a produzir armas para a resistência (resistência nenhuma, que a guerra já bateu a bota há muito). O amigo que ficou na superfície aproveita-se desta produção alternativa e barata para entrar no tráfico de armas, enriquecer e conquistar um lugar na vida pública. O filme é, naturalmente, muito mais que isto, uma viagem por um país e pela geografia das almas tresloucadas e ciganas daquelas gentes. O que acima se disse é como que um pontapé de saída, a premissa básica da coisa: o filme, esse, é um delírio que explode em todas as direcções todas as emoções.

O FILME:
Underground valeu a Kusturica a segunda Palma de Ouro, depois de O Meu Pai Partiu Em Viagem De Negócios (a exibir para a semana). Raríssimos são os realizadores que se podem orgulhar de tal feito. Com praticamente três horas de duração, o filme tinha inicialmente 320 minutos (aliás, ele foi exibido como um mini-série de cinco horas na TV sérvia). Hoje universalmente reconhecido como uma obra-prima, o filme de Kusturica é incontornável.

O REALIZADOR:
Kusturica, nascido em 1954 em Sarajevo, é muito possivelmente o realizador mais conhecido dos Balcãs e aquele que lhes tirou melhor o espírito para o pôr nos filmes. O seu início de carreira foi assaz auspicioso: com o seu primeiro filme, Lembras-te de Dolly Bell? (1981), ganhou o Leão de Ouro em Veneza (pronto, há gente que tem sorte - ou génio); com o seu segundo, O Meu Pai Partiu Em Viagem de Negócios (1985), ganhou a Palma de Ouro. Seguiram-se dois dos seus maiores (caramba que na filmografia dele é difícil achar menores): Underground e Gato Preto, Gato Branco (1998), que o tornou num ícone pop entre os jovens ocidentais, promessa que seria confirmada com A Vida É Um Milagre (2004). Ainda não lançado em Portugal, Promise Me This (2007) não tem conhecido o sucesso dos anteriores, bem pelo contrário. Já este ano lançou um documentário sobre Maradona (exibido em Portugal no DocLisboa). Nada se conhece ainda do próximo projecto. Nota final (repare-se no uso da palavra apropriada, «nota»): Kusturica, o músico.

O TRAILER:

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

11/11: "A Dama de Xangai", de Orson Welles (1947) - Apresentação

A HISTÓRIA:
Michael O'Hara, um marinheiro (interpretado por Welles), é contratado como membro da tripulação do iate de um abastado advogado, Banister (Everett Sloane). A mulher deste, a bela mas misteriosa Elsa (Rita Hayworth), já travara conhecimento com O'Hara, que a havia salvo de ser assaltada, aquando da chegada desta a NY. O casal encontra-se a caminho de São Francisco via Canal do Panamá. O que se segue é uma complicada intriga, em que O'Hara, apesar da sua inocência, se vê acusado de assassínio. O argumento, aparentemente simples e até curriqueiro (quantos filmes já não partiram da premissa do homem falsamente acusado?), esconde na realidade uma estória intrincada, que os espectadores nem sempre têm facilidade em perceber, pela sua complexidade (ou simplesmente, como já alguém argumentou, porque Welles, preocupado com os aspectos técnicos e a beleza das imagens, pura e simplesmente não deu ao guião a atenção necessária).

O FILME:
Incursão de Welles pelo bom género do film noir, o filme merece que se conte a sua lenda. Estando, na altura, a trabalhar numa adaptação cómica da Volta ao Mundo em 80 Dias para teatro, Welles, que precisava urgentemente de dinheiro, telefonou ao presidente da Colombia Pictures, pedindo $55.000, prometendo, em troca, escrever, realizar e produzir um filme para ele gratuitamente. Na ocasião, sob a pressão do momento, sugeriu que o filme fosse baseado no livro que a empregada da bilheteira se encontrava a ler na altura - A Dama de Xangai - que ele próprio, de resto, nem sequer lera antes. Diga-se de passagem que os estúdios da Colombia Pictures não ficaram muito satisfeitos com o resultado final, cortando cerca de uma hora da versão original do realizador. Mas a estória do filme não termina: supostamente parte desses cortes ficaram a dever-se ao caso Dália Negra (conhecido de muitos graças ao penúltimo De Palma), pois parece que várias dessas cenas cortadas faziam referências a um caso semelhante (isto continua a acontecer: a estreia de V for Vendetta (2006) foi adiada por causa dos atentados de Londres).

O REALIZADOR:
Orson Welles (1915-1985) é considerado universalmente um dos maiores génios de sempre da sétima arte, com Citizen Kane (1941) - a ser exibido pelo CADC Cinema já na próxima semana, dia 4/11 - a ser considerado repetidamente por muitos críticos como o melhor filme de sempre (discordamos, mas reconhecemos a tremenda genialidade da obra). Welles é também conhecido pela maioria das pessoas pela sua celebérrima adaptação radiofónica da Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, que pôs meia américa a fugir de uma falsa invasão de marcianos. Com uma personalidade larger-than-life, o seu breve casamento com Rita H., foi particularmente mediático. Mau grado o seu sucesso póstumo, a verdade é que, em vida, foi sempre um outsider, tendo sempre de lidar com problemas de falta de dinheiro ou estúdios patetas e caprichosos. Welles não foi muito feliz, de facto, e acabou a vida obeso como um pavaroti. As suas obras e sua lenda, porém, continuam, inspirando todo aquele que delas se aproxima.

O TRAILER (não é grande espingarda, mas dêem o desconto: acham quem em 1947 eles sabiam fazer trailers?)