domingo, 27 de janeiro de 2008

28/01: "Carandiru", de Héctor Babenco (2003) - Apresentação

CONCLUI-SE AMANHÃ o Ciclo de Cinema Brasileiro com a exibição de Carandiru, no sítio de sempre, pela hora do costume. O filme, de Héctor Babenco, de 2003, obriga-nos de novo a contemplar a realidade social do Brasil, relembrando a falta de condições das prisões brasileiras. Não deixa de ser curioso registar que os filmes brasileiros que mais reputação têm conquistado nesta década sejam precisamente os que se debruçam sobre as grandes problemáticas sociais do Brasil. É o caso de Cidade de Deus (já exibido), de Fernando Meirelles (2002), Carandiru e, mais recentemente, Tropa de Elite, de José Padilha (2007). Falemos agora, porém, da fita de amanhã.

A HISTÓRIA:
Baseado numa história verídica, Carandiru é a adaptação do livro Estação Carandiru de Drauzio Varella. Pelos olhos de um médico que trabalhou doze anos na infame casa de detenção de São Paulo, vamos assistindo a uma série de estórias de crime, vingança, amor e amizade. O filme funciona como um puzzle: as várias narrativas entrecruzam-se para traçar um retrato realista da tragédia de um país, o Brasil. Os espectadores seguem o dia-a-dia dos prisioneiros até ao terrível dia 2 de Outubro de 1992, um dia que abalou toda a prisão (e todo o Brasil): o dia do massacre de Carandiru.

O FILME:
Carandiru conheceu um considerável sucesso, tendo sido nomeado para a Palma de Ouro no ano do seu lançamento. Passou ainda pelo Festival de Toronto e por Sundance, talvez os dois nomes mais pomposos no seu currículo depois de Cannes. Foi nomeado para quase todas as categorias do Grande Prémio Cinema Brasil, tendo conquistado os trofeús de melhor realizador e melhor argumento adaptado. No IMDB goza de uma simpática classificação de 7.6/10 e o RottenTomatoes dá-lhe 68%.

O REALIZADOR:
Héctor Eduardo Eduardo Babenco nasceu na Argentina em 1946. Aos dezanove anos de idade radicou-se no Brasil, tendo obtido a cidadania brasileira em 1977. Estreou-se nas lides do cinema com O Rei da Noite (1975), mas só atingiu fama internacional com Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981). O filme foi francamente bem recebido, revelando de forma dramática a realidade trágica do submundo do crime juvenil no Brasil. O sucesso da fita permitiu-lhe a internacionalização, seguindo-se um conjunto de filmes em inglês. O mais conhecido será certamente O Beijo da Mulher Aranha (1985), mas destaque-se também Ironweed (1987), que conta com a participação de Tom Waits e um dos posters mais brilhantes que conhecemos (evocando Magritte). Depois de Carandiru, realizou El Pasado (2007), com a participação do bem conhecido e bom actor Gael García Bernal.

TRAILER:

domingo, 13 de janeiro de 2008

Sugestões Ciclo Cinema Espanhol

SEGUE-SE ESPANHA. Será só em Fevereiro, mas antecipadamente se devem planear as coisas. Pareceu-nos que seria interessante se os leitores cinéfilos colaborassem também na escolha dos filmes para o próximo ciclo. Sugestões são sempre bem-vindas e porque os seis olhos destes três organizadores não podem ver tudo, certamente coisas boas nos escapam. Para que não as percamos, pedimos a vossa ajuda. Nos comentários a este post, sugiram o que bem vos aprouver, conquanto:

1) o filme seja falado em espanhol;
2) o filme seja de um realizador espanhol;
3) o filme seja uma produção ou co-produção de Espanha.

Se simplesmente não tiverem o tempo, a vontade e a disponibilidade de irem ao IMDB verificar se o filme que têm já em mente para sugerir preenche estes requisitos todos, não se preocupem: escrevam, que nós depois logo o consideraremos. A ver se isto traz mais movimento a um blogue que coitado sobrevive - certamente culpa nossa também, e do dia, por não ter vinte e cinco horas.

14/01: "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles (2002) - Apresentação

COMEÇAMOS AMANHÃ o nosso terceiro ciclo, sob a bandeira do Brasil. Coisa estranha esta, de o cinema brasileiro, no fundo, ser tão pouco conhecido entre nós, mas que se explica por não sermos todos Agualusa, esse bom e grande escritor que, mesmo se nascido em Angola, pertence a cada homem que fale português. A triste ausência de um sentido verdadeiro de lusofonia faz com que a produção brasileira acabe por ser para nós um campo desconhecido. Onde poderia existir um mercado comum, existe um oceano que parece que ainda não conheceu Cabral. Não foi sem esforço que se arranjaram os filmes que pretendemos exibir neste ciclo: algumas propostas iniciais foram abandonadas por os filmes pensados não serem comercializados em Portugal - e não havia tempo de os mandar vir de Vera Cruz. Este é pois o ciclo possível - mas um ciclo bom, acreditamos.

Novo ano, hábitos novos: pretendemos remodelar, de alguma forma, a tradicional apresentação do filme que aqui fazemos. É um objectivo nosso para este ano conseguir, sempre que possível, fazer acompanhar a exibição do filme de um pequeno flyer com informação sobre o mesmo. Tentaremos doravante antecipar o seu formato aqui no blogue, ainda que, naturalmente, enriqueçamos esta apresentação tendo em conta o meio em que nos movemos: essa pangeia nova que é a divina internet. O facto de, no meu caso, não ter visto ainda, por vezes, os filmes exibidos, obrigar-me-á, porventura, a abdicar de uma certa subjectividade com que antes engalanava os textos passionais que redigia. Doravante, portanto, será possível que, como já neste caso, se recorra, para a apresentação do filme, a informação do site oficial, como fonte sem dúvida mais fiável do que as mãos que escrevem daquele cujos olhos não viram o filme.

A HISTÓRIA:
O principal personagem do filme Cidade de Deus não é uma pessoa. O verdadeiro protagonista é o lugar. Cidade de Deus é uma favela que surgiu nos anos 60, e se tornou um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro, no começo dos anos 80. Para contar a estória deste lugar, o filme narra a vida de diversos personagens, todos vistos sob o ponto de vista do narrador, Buscapé. Este, um menino pobre, negro, muito sensível e bastante amedrontado com a ideia de se tornar um bandido; mas também, inteligente suficientemente para se resignar com trabalhos quase escravos.
Buscapé cresceu num ambiente bastante violento. Apesar de sentir que todas as chances estavam contra ele, descobre que pode ver a vida com outros olhos: os de um artista. Acidentalmente, torna-se fotógrafo profissional, o que foi sua libertação. Buscapé não é o verdadeiro protagonista do filme: não é o único que faz a estória acontecer; não é o único que determina os fatos principais. No entanto, não somente sua vida está ligada com os acontecimentos da estória, mas também, é através da sua perspectiva que entendemos a humanidade existente, em um mundo aparentemente condenado por uma violência infinita.
(retirado do site oficial do filme)

O FILME:
Cidade de Deus será certamente o filme mais popular saído do Brasil nesta nova década. O filme inaugurou-se auspiciosamente no Festival de Cannes, em 2002. Vencedor de vários prémios, cuja lista exaustiva consumiria algumas linhas, foi ainda nomeado para quatro óscares, entre eles Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Argumento Adaptado. A crítica foi unânime no elogio do filme e o público concordou, afluindo às salas. Actualmente, no IMDB, encontra-se na invejável décima sexta posição na lista dos melhores filmes de sempre. O filme acabaria por dar origem ainda a uma mini-série de televisão, um spin-off de quatro temporadas: Cidade dos Homens, também do mesmo realizador.

O REALIZADOR:
Fernando Meirelles, oriundo de São Paulo, Brasil, nasceu em 1955. Tendo cursado Arquitectura, trabalhou inicialmente para a televisão, como realizador de anúncios publicitários. Estreou-se na realização com E no meio passa um trem (1998), uma curta-metragem. A sua primeira longa data do mesmo ano: Menino Maluquinho 2. Em 2000 realizou a curta Palace II, que partia de um excerto do livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, livro que o realizador converteria numa longa-metragem em 2002, com o filme homónimo. Cidade de Deus catapultou Meirelles para o sucesso, lançando-o junto da indústria americana. Realizou então The Constant Gardener/O Fiel Jardeneiro (2005), já com actores de Hollywood. O filme, mais uma vez, valeu a Meirelles alguns prémios, com Rachel Weisz a receber pelo seu desempenho o óscar de Melhor Actriz Secundária. Actualmente, o realizador encontra-se a trabalhar na pós-produção de Blindness, nada mais nada menos que a adaptação cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago. O filme deverá estrear este ano e conta com as participações de actores tão conhecidos como Julianne Moore, Mark Ruffalo e Gael García Bernal.

TRAILER:

domingo, 6 de janeiro de 2008

Sobre o Ciclo Francês: Sugestões de Filmes Para Curiosos

NOVO ANO. Para trás ficou o ciclo de cinema francês, espera-nos agora a apaixonante vertigem brasileira. Antes, porém, já na linha do que fizera aquando do fecho do ciclo alemão, não quero deixar de indicar, aos mais curiosos, uma série de filmes que podem explorar dentro da vastíssima produção cinematográfica gaulesa. A França ocupa, de facto, um papel priviligeado na história do cinema: dentro das suas fronteiras nasceu o cinema, pela magia dos Lumière; nela nasceu o cinema pela segunda vez, refrescado pela nouvelle vague. É sintomático que a palavra auteur, pela qual se designam aqueles realizadores que verdadeiramente interessam, os que deixam uma marca pessoal e inimitável nos seus filmes, venha do francês. Também não é inocente que a mais conceituada revista da sétima arte provenha do Hexágono: Les Cahiers du Cinema. E como esquecer Cannes, para muitos (entre esses, eu) mais importante do que o Kodak Theatre? Este pequeno post, portanto, pretende apenas apontar nalgumas possíveis direcções, filmografias que cada um, consoante os seus gostos, escolherá aprofundar. Não pretendemos ser exaustivos - de resto, quem somos nós, para, como de um alto de um pedestal, pregarmos, quando tanta é a nossa ignorância? - apenas queremos fornecer algumas sugestões de visionamento futuro.
Certo será começar com o princípio de tudo: os Irmãos Lumière. 1895, essa data em que, mais do que o cinema ter visto o mundo, o mundo viu o cinema. Os irmãos declararam que aquela era uma invenção sem futuro, e pouco se interessaram por ela. Em Paris mostraram dez pequenos filmes, todos eles inferiores a um minuto. Esse novo media que é o YouTube (com que De Palma se divertiu a brincar no seu último) permite-nos recuperar essas primeiras imagens, há muito caídas pelo tempo em domínio público.

Quem não subestimou a nova maquineta foi Marie-Georges-Jean Méliès (tinha, perdoem-me, que escrever o nome completo dele: já repararam que o assustador nome próprio são três palavras hifenizadas?), o pai dos efeitos especiais. Os milagres que este homem fez com a câmara. Ver um filme de Méliès é retomar a infância e o fascínio primeiro, ver as pinturas rupestres do cinema, a pobre arte adivinhando os seus caminhos pelas mãos dos artistas novos. Indubitavelmente, o seu filme mais conhecido é Le Voyage Dans la Lune (1902), com o famoso frame da lua zarolha de uma astronave. YouTube bendito, abre-te sésamo!:

Até à II Guerra Mundial, destaque para Jean Renoir (filho do Renoir pintor), e os seus La Grande Illusion (1937) e La Règle du Jeu (1939). Uma referência merecida a Les Enfants du Paradis (1945), de Marcel Carné. Mas eis que vem pois a revolução - e o seu nome é nouvelle vague. Os Les Quatre Cent Coups/Os Quatrocentos Golpes, de Truffaut (1959) é talvez a obra máxima do movimento. Juntamente com a The Birth Of a Nation, de Griffith (1915) e Citizen Kane, de Welles (1941), já o vi ser considerado o terceiro filme que mudou radicalmente o curso da história do cinema. Como não referir também Jules et Jim (1962) ou Tirez Sur Le Pianiste (1960)? E Godard? À Bout de Souffle (1960), Bande à Part (1964) ou Alphaville (1965)? E Resnais, com o supremo Hiroshima Mon Amour (1959) ou L'année dernière à Marienbad (1961)?
Perdoem o acumular de nomes no parágrafo anterior, mas os que melhor conhecem o movimento certamente me estarão já a censurar várias omissões e o desleixo. Gasta-se aqui o cinema francês? Certamente que não: temos de referir Jean-Pierre Melville e Jean Eustache, com o seu La Maman et la Putain (1973). Actualmente, não se poderá esquecer sem dúvida François Ozon, que tem tido algum sucesso com filmes como 8 Femmes (2002) ou Swimming Pool (2003). De Jeunet, já falámos em parte. Luc Besson, ainda que mais popular e mainstream, não deixa de ter as suas pequenas obras grandes, como Nikita (1990) ou Léon (1994). Christophe Honoré com os seus dois últimos, Dans Paris (2006) e Chansons d'Amour (2007) foi bastante aclamado. Outro filme que andou nas bocas do mundo foi Caché (2005), de Michael Haneke: avisa-se que vai ser exibido na Sessão Dupla de próximo sábado da RTP2. O que aqui apresentámos não é mais do que um rascunho rápido (convençam-se que este é um blogue feito sempre com remendos de tempo que sobra do demais - mas também escrito com muita paixão e desejo de aprender) da riqueza enorme do cinema francês. Apreciem.
P.S.: Esqueci o Bresson! Apunhalem-me! Remeto para a Midas.
P.S.2: E a Duras, com o India Song (1975)!
P.S.3: Crime! Não mencionei o Tati, o Jacques Tati! Como é possível um esquecimento assim?

Imagens: Jean-Luc Godard,
na última fumando em protesto contra a nova lei do tabaco (e eu nem sou fumador)