domingo, 6 de abril de 2008

07/04: "Epidemia", de Lars Von Trier (1987) - Apresentação

CONFESSO-ME NÓRDICO. "The west is the best", cantava o Rei Lagarto. A mim, porém, sempre foi o norte que me alcançou o coração. Prefiro o Porto a Lisboa. Se o mundo fizesse sentido, eu teria nascido irlandês e não no Mediterrâneo. Deus me livre de morrer sem ver os fiordes da Noruega. Tolstoi ensinou-me a amar a Rússia com os seus casacos de pele. Na América, ia primeiro a Chicago que a Nova Iorque. O Tibete livre continua um desejo que nunca irei realizar, porque me recuso a ter de obter uma autorização do governo chinês para aceder a regiões onde não reconheço a soberania dele. Nunca me atraíram de sobremodo as praias exóticas do Sul como a tantos: caraíbas, rios, cubas, madeiras. Dois países só, por estórias diferentes, me conquistaram, para baixo da linha do equador: peter jackson e a sua trilogia ensinaram-me a amar a antípoda nova zelândia (para onde, lembro-me de o dizer, iria morar com a minha bicicleta vermelha); pratt e borges educaram-me o gosto pela argentina, e gotan project infiltrou-me o tango nos sonhos. Sou nórdico de adopção, portanto. Este novo ciclo, que o Epidemia do Von Trier estreia, dedicado ao cinema escandinavo é uma oportunidade de conhecer a produção desses países, que raramente escoa para as salas de cinema portuguesas. E não podia haver melhor inauguração do que esta, com aquele que, quantos me conhecem o sabem, é, para mim, o maior realizador vivo. Mas adiante darei largas à minha religião cinéfila.

A HISTÓRIA:
Sob pressão para cumprir o prazo que lhes foi imposto pelo Instituto de Cinema Dinamarquês, um escritor e um realizador (o próprio Von Trier e o seu co-argumentista) descobrem que não podem recuperar do computador o guião em que trabalharam mais durante um ano inteiro, por isso vêem-se forçados a começar um novo de raíz para apresentar dentro de cinco dias. O novo guião intitula-se Epidemia, e vai progressivamente ganhando forma, inspirado pela pesquisa de relatos de pragas que ambos levam a cabo na Biblioteca da Universidade. Num país infectado por uma epidemia terrível, a nação é governada por um grupo de médicos fechados numa casa, em segurança - até um deles planear sair. Os dois amigos conseguem escrever um guião de doze páginas para apresentar, mas, durante um jantar, um visitante inesperado ameaça esbater a distância entre o filme sonhado e o mundo real.

O FILME:
Epidemia (1987) surgiu de um desafio entre Lars von Trier e Claes Kastholm do Instituto de Cinema Dinamarquês (equivalente ao nosso ICAM). Von Trier apostou, para conseguir obter financiamento para outro filme (o seu louvado Europa (1991)), que conseguia fazer um filme com menos de um milhão de coroas dinamarquesas. Não podemos deixar passar em branco a exibição do filme no nosso Fantas. Mal-amado, este filme, entre o horror e a fantasia, com o formalismo estético que marca o início da carreira de Trier, é visto, por alguns, como um objecto de interesse para fãs apenas, mesmo se é unânime o elogio ao final do filme. Este mau-amor, contudo, pode não ser mais do que a manifestação de incómodo de alguns espectadores. É neste filme, significativamente, que Von Trier afirma: "um filme deve ser como uma pedra no sapato".

O REALIZADOR:
Não sou a pessoa certa para falar de Von Trier: a minha opinião está, a priori, viciada. Lars foi quem me abiu as portas e os olhos com o seu Dogville (2003), até hoje o meu filme favorito (mesmo se sou forçado a reconhecer que, objectivamente, é O Padrinho, de Coppola (1972), o melhor filme do mundo). Von Trier, que sempre redigiu também os seus argumentos, é um enfant terrible, um provoca(u)teur.
A sua filmografia é uma sucessão de considerações sobre o Bem e o Mal (assim mesmo, com maiúscula), profundamente coerente. Não espanta ninguém que o se próximo projecto, o filme de terror Antichrist (cujo elenco deverá ser anunciado em Cannes agora), se construa sob a premissa que o mundo, em vez de ser obra de Deus, é fruto do Diabo. Tal argumento não é mais que uma metamorfose do tema que rege a sua obra toda. Não conheço, não vi ainda Epidemia: mas por quanto já li parece-me que este filme não foge também à regra.
Duas notas essenciais que os filmes deixam adivinhar da sua mundividência: por um lado, o Bem, o verdadeiro Bem, é insuportável para o mundo, incapaz de o aceitar (isso é a moral de toda a trilogia Golden Heart (1996, 1998, 2000) do realizador); mundo este que, de resto, nem sequer está interessado no Bem (essa é a constatação terrível de Europa). Por outro lado, para Trier, o Bem é sempre destrutivo: os filmes oscilam, por um lado, entre o idealista que, na sua ânsia de tudo fazer melhor, converte-se, a longo prazo, ele mesmo na encarnação do Mal (O Elemento do Crime (1984), a primeira longa de Lars, logo estabelece isto, mas a ideia é a mesma que encontramos na trilogia USA, Land of Opportunities (2003, 2005, ?)); e, por outro, o idealista que, sendo uma encarnação tão genuína do Bem, porque só pratica o Bem, acaba por se arruinar, e levar à sua própria destruição (pense-se nas heroínas do trio Golden Heart, talvez a mais perfeita Bess em Ondas de Paixão (1996)).
Trier, porém, merece tanto destaque pelos seus argumentos, condenados a interrogar e assombrar o espectador, como pela sua técnica. A primeira trilogia, Europa, da qual Epidemia é o segundo tomo (as trilogias, convém esclarecer, estão apenas ligadas tematicamente, não a nível de história ou personagens), é talvez a mais perfeita formalmente, a ponto de alguns detractores a rotularem de exercício de estilo sem conteúdo (ideia nitidamente falsa). Por oposição, a trilogia Golden Heart é um exercício supremo de liberdade cinematográfica, onde a câmara à mão, por exemplo, predomina, exercício pautado pelo movimento Dogme, que Trier, com mais três amigos, criou (mesmo se só Os Idiotas (1998) pode ser, efectivamente, classificado de filme Dogme). A nova trilogia USA, Land Of Opportunities prima mais uma vez pelo experimentalismo, com a inexistência de cenários, reduzidos a traços brancos no chão e meia dúzia de elementos essenciais à acção.
Trier faz bem chamar-se Trier, porque ele é, de facto, um trier (ler à inglesa a palavra em itálico), ou seja, um experimentador, alguém que ousa trilhar caminhos novos incessantemente. Por isso o tenho em tão boa conta, pela sua profunda ousadia (a que alguns preferem chamar, desdenhado, orgulho balofo). Lars ou se ama ou se odeia: eu adoro-o.

NÃO-TRAILER :

2 comentários:

Artur Corvelo disse...

fiquei com vontade de conhecer a obra do senhor von trier. parabéns pelo blogue e, claro, pelos ciclos de cinema.

Príncipe Myshkin disse...

Acredita, vale a pena. O meu conselho seria começares pelo "Dogville" (2003), do qual sou um pregador incansável. Da trilogia "Europa" recomendo particularmente o homónimo, e da "Golden Heart" o primeiro, o "Breaking The Waves - Ondas de Paixão". Estes três dar-te-ão uma visão ampla da obra dele, e penso que te deixarão curioso para prosseguires depois tu a investigação.