domingo, 6 de janeiro de 2008

Sobre o Ciclo Francês: Sugestões de Filmes Para Curiosos

NOVO ANO. Para trás ficou o ciclo de cinema francês, espera-nos agora a apaixonante vertigem brasileira. Antes, porém, já na linha do que fizera aquando do fecho do ciclo alemão, não quero deixar de indicar, aos mais curiosos, uma série de filmes que podem explorar dentro da vastíssima produção cinematográfica gaulesa. A França ocupa, de facto, um papel priviligeado na história do cinema: dentro das suas fronteiras nasceu o cinema, pela magia dos Lumière; nela nasceu o cinema pela segunda vez, refrescado pela nouvelle vague. É sintomático que a palavra auteur, pela qual se designam aqueles realizadores que verdadeiramente interessam, os que deixam uma marca pessoal e inimitável nos seus filmes, venha do francês. Também não é inocente que a mais conceituada revista da sétima arte provenha do Hexágono: Les Cahiers du Cinema. E como esquecer Cannes, para muitos (entre esses, eu) mais importante do que o Kodak Theatre? Este pequeno post, portanto, pretende apenas apontar nalgumas possíveis direcções, filmografias que cada um, consoante os seus gostos, escolherá aprofundar. Não pretendemos ser exaustivos - de resto, quem somos nós, para, como de um alto de um pedestal, pregarmos, quando tanta é a nossa ignorância? - apenas queremos fornecer algumas sugestões de visionamento futuro.
Certo será começar com o princípio de tudo: os Irmãos Lumière. 1895, essa data em que, mais do que o cinema ter visto o mundo, o mundo viu o cinema. Os irmãos declararam que aquela era uma invenção sem futuro, e pouco se interessaram por ela. Em Paris mostraram dez pequenos filmes, todos eles inferiores a um minuto. Esse novo media que é o YouTube (com que De Palma se divertiu a brincar no seu último) permite-nos recuperar essas primeiras imagens, há muito caídas pelo tempo em domínio público.

Quem não subestimou a nova maquineta foi Marie-Georges-Jean Méliès (tinha, perdoem-me, que escrever o nome completo dele: já repararam que o assustador nome próprio são três palavras hifenizadas?), o pai dos efeitos especiais. Os milagres que este homem fez com a câmara. Ver um filme de Méliès é retomar a infância e o fascínio primeiro, ver as pinturas rupestres do cinema, a pobre arte adivinhando os seus caminhos pelas mãos dos artistas novos. Indubitavelmente, o seu filme mais conhecido é Le Voyage Dans la Lune (1902), com o famoso frame da lua zarolha de uma astronave. YouTube bendito, abre-te sésamo!:

Até à II Guerra Mundial, destaque para Jean Renoir (filho do Renoir pintor), e os seus La Grande Illusion (1937) e La Règle du Jeu (1939). Uma referência merecida a Les Enfants du Paradis (1945), de Marcel Carné. Mas eis que vem pois a revolução - e o seu nome é nouvelle vague. Os Les Quatre Cent Coups/Os Quatrocentos Golpes, de Truffaut (1959) é talvez a obra máxima do movimento. Juntamente com a The Birth Of a Nation, de Griffith (1915) e Citizen Kane, de Welles (1941), já o vi ser considerado o terceiro filme que mudou radicalmente o curso da história do cinema. Como não referir também Jules et Jim (1962) ou Tirez Sur Le Pianiste (1960)? E Godard? À Bout de Souffle (1960), Bande à Part (1964) ou Alphaville (1965)? E Resnais, com o supremo Hiroshima Mon Amour (1959) ou L'année dernière à Marienbad (1961)?
Perdoem o acumular de nomes no parágrafo anterior, mas os que melhor conhecem o movimento certamente me estarão já a censurar várias omissões e o desleixo. Gasta-se aqui o cinema francês? Certamente que não: temos de referir Jean-Pierre Melville e Jean Eustache, com o seu La Maman et la Putain (1973). Actualmente, não se poderá esquecer sem dúvida François Ozon, que tem tido algum sucesso com filmes como 8 Femmes (2002) ou Swimming Pool (2003). De Jeunet, já falámos em parte. Luc Besson, ainda que mais popular e mainstream, não deixa de ter as suas pequenas obras grandes, como Nikita (1990) ou Léon (1994). Christophe Honoré com os seus dois últimos, Dans Paris (2006) e Chansons d'Amour (2007) foi bastante aclamado. Outro filme que andou nas bocas do mundo foi Caché (2005), de Michael Haneke: avisa-se que vai ser exibido na Sessão Dupla de próximo sábado da RTP2. O que aqui apresentámos não é mais do que um rascunho rápido (convençam-se que este é um blogue feito sempre com remendos de tempo que sobra do demais - mas também escrito com muita paixão e desejo de aprender) da riqueza enorme do cinema francês. Apreciem.
P.S.: Esqueci o Bresson! Apunhalem-me! Remeto para a Midas.
P.S.2: E a Duras, com o India Song (1975)!
P.S.3: Crime! Não mencionei o Tati, o Jacques Tati! Como é possível um esquecimento assim?

Imagens: Jean-Luc Godard,
na última fumando em protesto contra a nova lei do tabaco (e eu nem sou fumador)

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